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KARLA KUSTER CABECA hojesc

Dicionário secreto do corporativo

mundo corporativo

No mundo corporativo há frases que soam como elogios, mas funcionam como um passe de mágica para transferir responsabilidades. “Você é a pessoa mais competente para executar essa tarefa” é uma das mais refinadas. Na versão oficial, é reconhecimento. Na tradução interna, costuma significar “parabéns, isso agora é problema seu”.

O corporativês é rico em construções assim, elegantemente vagas: “Nós somos uma família” nada mais é do que um sinal de que vão chegar pedidos fora de hora ou metas desafiadoras. “Vista a camisa da empresa” é um convite sutil para avisar que vai ter que trabalhar além do combinado, sem reclamar. “Você é uma das maiores feras da cia”, é só um jeito de ganhar a atenção de alguém que vai te pedir alguma coisa.

Ainda tem alguns jargões em inglês, essas mais reservadas às multinacionais… Do “think outside the box”, (pense fora da caixa) que geralmente aparece quando ninguém tem ideia do que fazer, nem o gestor, mas precisa soar inovador e motivador, para alguém conseguir resolver o problema dele.

E tem o clássico “by the way” (ou sua versão abreviada BTW). Literalmente “a propósito”. Na vida real corporativa, costuma ser o momento em que alguém solta uma bomba adicional no final da conversa, como se fosse um detalhe sem importância: “By the way, preciso disso até amanhã cedo”. É o “ah, só mais uma coisinha” que transforma uma reunião já longa em um compromisso extra.

E o querido “ASAP” — “o mais breve possível”. Na tradução real, geralmente quer dizer “urgente para você, mas só para você”. Quanto mais educado o tom, maior a pressão.

O sarcasmo que surge dessas expressões revela uma verdade incômoda: muita fala e pouco entendimento.
Reuniões viram exercícios de diplomacia, e-mails ganham camadas de floreios desnecessários e todos fingimos que estamos alinhados, enquanto cada um interpreta a frase do seu jeito. O resultado? Tem gente que não entende nada!

O interessante é que esse vocabulário persiste porque é útil. Ele permite dizer coisas difíceis sem parecer rude, porque a verdade está nas entrelinhas, ou seja, você xinga sem a pessoa entender. Sendo assim, a harmonia permanece.

Talvez o grande desafio é aprender a usar menos palavras bonitas e começar a jogar limpo. Porque “vamos resolver isso juntos” soa muito melhor quando realmente significa “vamos resolver isso juntos”.

No fim, o corporativês não é tão ruim assim. É só um jeito bem humorado de se comunicar de forma profissional, sem ofender o coleguinha.

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