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Debate da Band: o Brasil merece mais do que um ringue eleitoral

Debate da Band: o Brasil merece mais do que um ringue eleitoral

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Os debates presidenciais estão perdendo sua finalidade. Aquilo que deveria ser um confronto civilizado de ideias transformou-se, nos últimos anos, numa fábrica de pequenos vídeos para as redes sociais. Os candidatos entram no estúdio menos preocupados em explicar como pretendem governar e mais interessados em produzir a frase de efeito, a provocação ou o constrangimento que seus marqueteiros transformarão em cortes para o consumo de suas respectivas torcidas.

O encontro entre Lula e Flávio Bolsonaro, domingo, na Band, foi um retrato desse fenômeno. Houve uma ou outra proposta, é verdade, mas elas ficaram soterradas por insultos, acusações e provocações. Lula chamou Flávio de malandro carioca e desafiou o adversário a abrir seus sigilos. Flávio respondeu com acusações envolvendo familiares do presidente, em especial o filho mais velho, Lulinha. Entre uma agressão e outra, o eleitor teve poucas oportunidades de compreender como cada um pretende enfrentar os problemas brasileiros.

E o espetáculo não se limitou aos candidatos. A plateia comportou-se como arquibancada em dia de clássico. Gritos, vaias, gargalhadas e manifestações obrigaram os mediadores a interromper o programa e pedir silêncio. Uma cena constrangedora, incompatível com a importância do cargo em disputa.

Aliás, por que diabos um debate presidencial precisa de plateia? Para produzir aplausos encomendados? Para intimidar adversários? Para transformar o estúdio numa extensão dos comícios? Bastariam os candidatos, seus marqueteiros e os jornalistas responsáveis pela mediação. O restante é cenário para a algazarra.

E por falar em marqueteiros, chamou a atenção o comportamento de Sidônio Palmeira, responsável pela campanha de Lula. Irritado com a movimentação de Flávio atrás do presidente, gesticulou ostensivamente, falou alto e discutiu com integrantes da organização. A direção da Band precisou intervir. Sidônio, cuja função deveria ser orientar discretamente seu candidato, terminou contribuindo para a confusão que prejudicou a condução do programa.

Tudo isso expõe uma contradição. A televisão ainda consegue reunir milhões de pessoas diante de um debate presidencial, como aconteceu domingo. O interesse pelo confronto, no entanto, não significa necessariamente interesse pelas propostas. Boa parte da disputa acontece depois, nos celulares, em vídeos cuidadosamente recortados para exaltar um candidato e ridicularizar o outro.

Quanto ao desempenho dos presidenciáveis, sobraram dúvidas que mereciam respostas mais consistentes.

Lula, aos 80 anos, teve momentos de dificuldade na comunicação, inclusive nas considerações finais. Ao tentar concluir um raciocínio sobre um eventual quarto mandato, o presidente se atrapalhou nas palavras e afirmou que o Brasil havia acabado. Foi uma frase evidentemente incompatível com a mensagem que pretendia transmitir.

Um tropeço verbal não permite concluir nada sobre sua saúde, mas a exigência de clareza de quem governa permanece legítima.

Flávio, por sua vez, anunciou medidas ambiciosas sem detalhar suficientemente como pretende financiá-las e executá-las.

O mais grave é que estamos discutindo a Presidência da República. Não se trata de escolher o vencedor de uma disputa de insultos, mas quem terá a responsabilidade de conduzir o país por quatro anos.

Se os debates continuarem organizados para produzir espetáculo, e não esclarecimento, talvez seja hora de repensar radicalmente seu formato.

Porque o que se viu foi muita encenação, pouca discussão e uma oportunidade desperdiçada de tratar o eleitor como cidadão, não como integrante de torcida organizada.

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