
Sei que Dalton Trevisan chamou Miguel Sanches Neto de ‘hiena papuda’. E Helena Kolody de ‘santa Maria Bueno do versinho’.
‘A nossa pobre santa Maria Bueno do versinho piegas. Só que, ao contrário da outra, não faz milagre’, escreveu ele em ‘Desgracida’, lançado em 2010.
O fato de Dalton não citar nomes aguçava a curiosidade e criava uma espécie de caça ao tesouro. Os enxovalhados, a maioria escritores e poetas, ganhavam notoriedade por esse motivo. Não por suas obras – algumas do verbo obrar.
Sei de jornalistas que diziam gozar do convívio e da intimidade do contista. Ele nunca lhes abriu a porta, sequer respondeu a aceno. Mas vê-lo passar pela Amintas de Barros ou pela XV de Novembro parecia suficiente.
Um tal morreu de covid, outro de pedrada. E há aquele que jaz insepulto, esperando que o gato lhe jogue um montículo de terra.
Dalton era sorridente, dizem. Dalton era espontâneo, dizem. Dalton era falador. Não era segredo.
Ele compartilharia a broinha de fubá mimoso com quem quer que fosse. Desde que não se atrevessem a entrevistá-lo ou pior: fotografá-lo.
Leia Tchekhov
Em 1979, o jornalista Marcos Barrero foi enviado a Curitiba para entrevistar o escritor recluso.
A reportagem havia sido encomendada pela revista ‘Status’, então uma publicação de sexo, cultura pop e comportamento.
Durante semanas, Barrero tentou se aproximar de Dalton. Em vão. Até descobrir que ele comprava, diariamente, o ‘Jornal do Brasil’ em uma banca na Boca Maldita.
Papo vai, papo vem, e Dalton lhe recomendou uma edição de bolso dos contos de Anton Tchekhov.
O russo estava em seu particular panteão da glória. Ao lado de Machadinho, Salinger, Rubem Braga e Clint Eastwood.
Barata leprosa
Dalton desconfiou das perguntas, da falsa intimidade e do encontro casual. Mas deixou por isso mesmo. Um mês depois, a reportagem foi publicada.
O contista enviou um bilhetinho a Gilberto Mansur, editor da revista, que imediatamente ele publicou com destaque na seção de cartas do leitor. Duas palavras: ‘barata leprosa’.
Comprei o exemplar, recentemente, no Mercado Livre, por 100 reais (ou 1,6 milhão de caraminguás no dinheiro da época).
A Status não durou muito. Deixou de circular no final da década de 1980, mas essa reportagem ficou marcada.
Em artigos publicados nos jornais, a conversa de Dalton com Barrero é apontada como a última entrevista autorizada do escritor. Mentira.
Manequins de loja
De mais a mais, Dalton falava sobre novas e velhas edições de seus livros, mas não sobre literatura. Era um assunto que não vinha à mesa do café, porque dela ele não se nutria.
Gostava dos personagens das ruas, da senhora que furtava filés de alcatra no mercado para atender ao gosto exigente dos filhos, e da platitude dos manequins de loja, que ele apreciava – e tocava – com a mesma estética dos jurados do miss Universo.
Vampiro, sua morte sumiu do obituário pouco depois de divulgada pelo Serviço Funerário de Curitiba. Foi uma exigência de Dalton transmitida à família. Não se sabe se acreditava em Deus ou tinha inclinações místicas ao estilo Salinger. Da terra a terra, das cinzas às cinzas, do pó ao pó.
Antes mesmo de saber de seu falecimento, escrevi num guardanapo de papel três versinhos preguiçosos que me ocorreram: ‘Dalton, até que lhe cai bem / Serás nome de rua / E não serás ninguém’.
É isso. Que esqueçam de sua vida reclusa porque, de fato, não tinha interesse algum. Mas não de sua literatura. Esta não fica nem vai. Transcende.
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