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SILVIO LOHMANN CABECA hojesc

COP do Brasil traz avanços, mas aquém do necessário

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As avaliações de especialistas ligados a organizações ambientais convergem em um diagnóstico: a COP30 avançou, mas ficou aquém da ambição climática que o mundo exige. É praticamente consenso que os resultados revelam o esgotamento do modelo decisório da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), que exige unanimidade de votos para aprovar medidas capazes de responder à crise do clima. No sistema atual, sobram mecanismos de bloqueio e falta eficácia.

O fim dos combustíveis fósseis ficou fora dos documentos formais, apesar de a presidência brasileira ter criado, por declaração, um processo para que haja avanço no debate sobre até quando o mundo vai permitir o uso de petróleo, gás e carvão. A ideia leva o nome de Mapas do Caminho (Roadmaps). Pelo prisma dos otimistas, este pode ser considerado o principal legado político da conferência.

Diversas organizações climáticas consideram que esse movimento evita a paralisia das discussões sobre fósseis e mantém viva a perspectiva de limitar o aquecimento global a 1,5°C. As vozes da sociedade civil também destacam que Belém entregou o possível em um cenário geopolítico adverso, preservando o Acordo de Paris e evitando uma implosão do multilateralismo, que foi testado — e resistiu.

A adoção do Pacote Político de Belém, os avanços em adaptação e transição justa, o aumento do valor para financiamento climático e o fortalecimento da agenda oceânica mostram que a conferência produziu passos concretos, ainda que modestos, em direção a uma agenda climática mais integrada. Ambientalistas também consideram que parte das vitórias mais importantes veio fora das salas formais, reforçando a força da sociedade civil, dos povos indígenas e dos territórios.

Mas, no balanço geral, a leitura comum é a de que a COP30 não entregou o ponto de virada, esperado agora para a COP31, na Turquia. A tarefa, até lá, é cobrar coragem política, promover mobilização social e defender reformas institucionais que alterem o processo decisório, e permitam transformar ideias e ambições em ação real.

Posição padrão

A avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU) é de que a COP30 demonstrou que a cooperação climática ainda está viva. Por outro lado, o organismo reconhece que o resultado da conferência não ficou à altura da urgência climática indicada pela ciência. Entre os aspectos positivos, foram citados compromissos como triplicar o financiamento climático e a validação de indicadores globais para monitorar ações de adaptação. Com um posicionamento quase padrão após as COPs, a ONU insistiu que o desafio continua sendo transformar boa intenção em medidas reais.

Greenpeace vê desconexão

A Greenpeace considerou que, apesar das altas expectativas de uma COP30 no coração da Amazônia, a conferência terminou com avanços tímidos e lacunas graves. Segundo o relatório da organização, o encontro falhou em entregar “roteiros acionáveis” para eliminar o desmatamento até 2030 e avançar na extinção dos combustíveis fósseis. A entidade apontou que o texto final mostra uma desconexão entre declarações e decisões e enfatizou que, ao fim da Conferência do Clima de Belém, o “dever de casa” segue pendente.

Fala a ciência

“A verdade é que não há como evitar um perigoso aumento da temperatura global sem acabarmos com a dependência de combustíveis fósseis até 2040 ou, no mais tardar, até 2045. Não cumprir isso empurrará o mundo para uma perigosa mudança climática dentro de 5 a 10 anos, causando extremos climáticos cada vez mais intensos que afetarão bilhões de pessoas”. Essa é uma das conclusões expressas em uma declaração assinada por renomados cientistas que ocuparam o Pavilhão da Ciência Planetária da COP30.

Bússola para a COP31

Em seu balanço, o Instituto Talanoa registra que a plenária final da COP30 foi marcada por tensão e que a sessão chegou a ser suspensa após países latino-americanos confrontarem nações produtoras de petróleo pela ausência de uma referência explícita ao fim dos combustíveis fósseis. Mesmo com protestos de delegações, que disseram não terem sido ouvidas, a presidência brasileira confirmou a adoção do texto. Apesar da frustração pela falta de uma menção explícita ao fim dos fósseis, o Talanoa ressalta que a presidência da COP anunciou dois Mapas do Caminho — um para reverter o desmatamento e outro para a transição energética — que servirão de bússola para destravar o debate rumo à COP31.

Ausência de Wall Street

Uma “declaração” importante pode ter vindo pela ausência dela. Essa é a avaliação de reportagens que apontaram que grandes gestores de fundos norte-americanos — Vanguard, State Street, Goldman Sachs, entre outros — praticamente não apareceram em Belém. A BlackRock, no passado entusiasta de investimentos verdes, reduziu sua delegação de dez para um representante. O ativista Mark van Baal acusou os gigantes rentistas de deixarem o campo livre para o lobby fóssil. Para ele, quando os maiores investidores ficam em silêncio “não há neutralidade, há cumplicidade”.

(Foto: Rafael Medelima/COP30)

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