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Congressos Acadêmicos: entre a construção do conhecimento e o risco do espetáculo

congresso

A ideia de reunir estudiosos para discutir o conhecimento não é nova. Já na Antiguidade existiam encontros de filósofos e intelectuais. Contudo, o congresso acadêmico, em sentido moderno, surgiu gradualmente. No século XIX, com a profissionalização das universidades e da pesquisa científica, esses encontros passaram a assumir características mais próximas dos congressos atuais: programação organizada, apresentação de trabalhos, conferências, sessões temáticas e participação de pesquisadores de diferentes instituições. Enfim, trata-se de um importante instrumento e espaço de comunicação científica.

Os congressos, portanto, não devem ser compreendidos simplesmente como eventos destinados a “expor trabalhos” e, muito menos, como espaços de “exposição pessoal”, por vezes acompanhados de viagens e de ambientes nababescos no exterior. Sua função acadêmica é muito maior e, sobretudo, impessoal.

Entre seus objetivos estão a difusão do conhecimento — permitindo que pesquisadores apresentem resultados de pesquisas, novas teorias, métodos e descobertas —, o debate, a crítica e a atualização científica, a formação de redes acadêmicas e, ainda, a formação de novos pesquisadores e a construção de comunidades científicas. É inegável, portanto, a importância dos congressos para a disseminação do conhecimento e para a própria evolução da sociedade.

Todavia, infelizmente, percebe-se a multiplicação de “congressos” com interesses outros, a exemplo da exposição de marcas e de pessoas. Não raro, criam-se dificuldades para a participação de novos expositores e pesquisadores, restringindo-se justamente o espaço que deveria ser destinado à renovação do pensamento.

A situação agravou-se com a pandemia da Covid-19 e a proliferação das chamadas “lives”, originalmente conhecidas como transmissões ao vivo pela internet, realizadas por plataformas como YouTube, Instagram ou outras ferramentas de videoconferência.

Não se desconhece a importância das “lives”, que democratizaram o acesso à exposição acadêmica e permitiram que o conhecimento ultrapassasse os limites físicos das universidades e dos congressos. Todavia, não raro, transformam-se em instrumentos de promoção pessoal, sem qualquer critério técnico, quando não acabam por desvirtuar a própria ciência, para dizer o mínimo.

Aliás, como advertiu Umberto Eco, “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Seja como for, não se pode deixar de reconhecer a importância dos congressos científicos — e, por consequência, das “lives”. Há que defendê-los e preservá-los. Todavia, do mesmo modo, é necessário resgatar seus fundamentos, sua finalidade e seu compromisso com a construção e a disseminação do conhecimento.

Incumbe, pois, à sociedade organizada, às universidades e à própria comunidade acadêmica selecionar e prestigiar os verdadeiros congressos científicos, aqueles que efetivamente contribuem para o debate, para a pesquisa e para a formação de novas ideias.

Felizmente, ainda existem muitos deles no Brasil.

É preciso, portanto, preservá-los. E, sobretudo, não permitir que o conhecimento seja substituído pelo espetáculo.

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