A questão é: aprendi alguma coisa sobre a vida? Apenas que os seres humanos são divididos em mente e corpo. A mente abrange todas as aspirações mais nobres como poesia, filosofia, mas o corpo tem toda a diversão. O ponto-chave aqui é não pensar na morte como um fim (desde que você não seja esse fim). Pense nela mais como um jeito eficaz de cortar despesas.
(WOODY ALLEN em “A Última Noite de Boris Grushenko”)
Pensei na teoria dos tipos ideais quando estava na fila do RH e percebi o quanto a empresa estava gastando com a seleção de pessoal. Ora, a ação social pode ser estritamente racional, desde que você a tenha como fim e esse fim é racionalmente buscado. Há a escolha dos melhores meios para se realizar um fim. Há quem procure por facas, cordas, armas de fogo, pílulas, choques elétricos, aulas de física quântica, advogados. Eu prefiro todos os métodos. Sempre com o mesmo fim. O fim do outro.
(MAX WEBER em “Estudos Psicografados”)
Falamos de concorrentes, o que inclui candidatos a um emprego e, sim, candidatos a um cargo político. Aos 93 anos, o diretor grego Costa-Gavras ostenta em sua filmografia uma célebre sequência de filmes políticos — ainda que estes pareçam, hoje, algo anacrônicos ou distantes da realidade atual.
Não se trata mais de denunciar ditaduras ou o desaparecimento de ativistas. O diretor preferiu escolher temas mais amplos e universais, voltando o olhar para o próprio quintal europeu. O Corte (Le Couperet, 2005), filmado há 21 anos, ainda preserva o tom cômico e ácido ao expor o capitalismo continental e sua crise inexorável.
É difícil saber se Costa-Gavras se aprofundou nas teorias de Max Weber sobre os tipos ideais de ação social. Deveria. O personagem Bruno Davert (José Garcia), o engenheiro que se torna um psicopata funcional, ilustra com precisão a “ação racional com relação a fins” mapeada pelo sociólogo alemão para classificar os tipos puros do agir humano.
Após trabalhar 15 de seus 41 anos em uma fábrica de papel, onde desenvolvia painéis eletrônicos, Bruno é demitido devido a um processo de reestruturação e terceirização. Dois anos depois, continua frequentando salas de entrevista, desempregado, desesperado e prestes a se armar.
É então que lhe surge a ideia puramente weberiana. Afinal, nada melhor do que uma ação friamente planejada, na qual se vislumbra um objetivo claro frente a outros fins possíveis, ponderando-se os meios e as consequências para atingi-lo.
O Corte poderia ter sido dirigido por Woody Allen, mas Costa-Gavras dá conta do recado — convenhamos, sem a ironia fina do cineasta nova-iorquino, mas com a eficiência necessária.
Após uma entrevista frustrante, Bruno consegue a lista dos concorrentes ao cargo cobiçado e decide aplicar a ela a lei mais implacável da livre concorrência.
Definido o objetivo, os meios utilizados pelo personagem flertam com o cinema policial e com a comédia de humor negro. Bruno passa a eliminar (literalmente) cada rival, calculando que, cedo ou tarde, a empresa acabará selecionando o seu currículo. Ele não mata ao acaso: antes, analisa a experiência profissional dos adversários e os descarta segundo critérios estritamente objetivos — eliminando tanto os mais quanto os menos qualificados.
Paralelamente, um detetive começa a rastrear seus passos, atento ao padrão existente nos currículos das vítimas. As execuções são desajeitadas, o que acaba se tornando o ponto mais frágil da trama. Costa-Gavras, que adaptou o roteiro do romance de Donald Westlake, parece não se preocupar em criar métodos criminosos elaborados. Bruno mata, e mata mal. Ao ser confrontado, comporta-se como a teoria prevê: manipula, despreza o interlocutor, ignora o impacto sobre as vítimas e foca exclusivamente na execução do plano.
Vemos aqui um Costa-Gavras explorando uma linguagem diversa daquela que o notabilizou. Ele mantém suas duras críticas ao capitalismo, mas agora a partir de uma distância mais neutra e analítica — quase como o próprio Max Weber faria. O protagonista José Garcia entrega uma atuação com semelhanças impressionantes às de Jack Lemmon, que também trabalhou com o diretor em ‘Desaparecido’ (Missing, 1982). O filme se nutre, assim, das melhores intuições sociológicas.
Se Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios” (embora tenha levado a fama), Weber aborda o tema de forma mais sinuosa. Na sua tipologia, as ações racionais orientadas por valores focam no princípio intrínseco, enquanto as orientadas a fins medem friamente as consequências. Bruno, ao transformar a busca pelo emprego em uma cruzada de eliminação, bem poderia ser um candidato a deputado, senador, governador ou presidente. Imagine a cena: Weber colocando todos eles na mesma fila do RH. Afinal, concorrente é concorrente.


