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PROJETO PIONEIRO

Como Balneário Camboriú pretende transformar esgoto em pedra

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Balneário Camboriú, em Santa Catarina, quer colocar em prática um projeto pioneiro: transformar lodo de esgoto em pedra. A prefeitura firmou em julho um termo de cooperação com a empresa Wastech Brasil para a adoção da tecnologia.

Trata-se de método moderno para tratar e descartar o lodo de esgoto, com foco em eliminar todos os contaminantes que podem ser prejudiciais para o meio ambiente e a saúde da população.

O representante da Wastech Brasil, Alex Moreno, explicou que o objetivo é garantir a eliminação de 100% dos resíduos tóxicos, patógenos, metais pesados, produtos químicos e outras substâncias perigosas, como dioxinas e furanos.

Essa purificação é possível graças à gaseificação a plasma, tecnologia que opera em temperaturas extremamente elevadas, podendo ultrapassar os 5.000°C e atingir até 30.000°C, o que assegura a destruição completa dos contaminantes presentes no lodo. O resultado do processo é uma pedra inerte, sem risco ambiental ou sanitário.

Além disso, esse material final pode ser reaproveitado na fabricação de tijolos, construção de calçadas e asfaltos sem qualquer possibilidade de contaminação, pois representa o último estado da matéria, ou seja, não sofre mais transformações.

Moreno também ressaltou que outras formas de destinação do lodo, como uso agrícola, compostagem ou pirólise parcial (decomposição de materiais orgânicos em altas temperaturas, na ausência total ou parcial de oxigênio), não garantem a eliminação total dos poluentes e podem até reintroduzir toxinas no solo e nos alimentos.

Por isso, segundo ele, a gaseificação a plasma – técnica usada para transformar o lodo em pedra – é “a única solução definitiva atualmente disponível”.

Segundo o representante, o processo completo envolve duas etapas principais:

1. Secagem do lodo, com a remoção da umidade;

2. Vitrificação, por meio do plasma, que transforma os resíduos em um material vítreo estável.

O projeto de transformar o lodo em pedra inerte é uma das estratégias do município para enfrentar antigos desafios do sistema de esgoto da cidade. Segundo o diretor presidente da Empresa Municipal de Água e Saneamento (Emasa), Auri Pavoni, outros dois projetos, ainda em sigilo, devem ser anunciados em breve, como parte de um conjunto de soluções cobradas pelo Ministério Público.

“Como as tecnologias disponíveis no mercado tinham preços proibitivos, passamos a abrir espaço para empresas com projetos em fase final de desenvolvimento, dispostas a firmar parceria com a Emasa. Todas as sextas-feiras pela manhã, os técnicos da Emasa receberam diversas propostas de estudos já bastante avançados”, explicou.

Neste caso em específico, a pesquisa estava sendo desenvolvida de forma independente há 14 anos. Por meio do termo de cooperação, a Emasa cede o espaço físico e fornece o material necessário, enquanto a Wastech Brasil entra com um projeto-piloto de menor escala, já pronto para testes em ambiente real.

Todo o custo da operação, incluindo o fornecimento de energia elétrica (por gerador), é de responsabilidade da empresa parceira. A equipe técnica da Emasa acompanha e monitora o processo e os resultados obtidos.

Caso o projeto seja aprovado após o “período de experiência”, com resultados dentro das normas técnicas e ambientais, a Emasa poderá ter participação na tecnologia desenvolvida.

O município também terá preferência na adoção da solução, podendo contratá-la por valor significativamente inferior ao custo praticado no mercado.

“É uma parceria que visa a solucionar um passivo ambiental antigo do município e, ao mesmo tempo, oferece a oportunidade para que pesquisadores e empresas coloquem seus projetos em prática”, destaca Pavoni.

Hoje, com os métodos convencionais, a Emasa investe cerca de R$ 5 milhões por ano no tratamento de esgoto, valor que poderá ser reduzido em até 70% caso a nova tecnologia seja implementada.

Além disso, as pedras inertes geradas poderão ser reutilizadas ou até comercializadas, com aplicação na fabricação de tijolos, calçadas e pavimentação. “A destinação final dependerá do contrato firmado”, complementa Pavoni.

Esgoto acumulado é desafio

Balneário Camboriú iniciou o tratamento de esgoto em 1983. À época, todo o esgoto coletado era tratado em três grandes lagoas anaeróbicas, que ocupavam cerca de 200 mil metros quadrados.

Entre 2008 e 2009, foi implantada a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), o que resultou na desativação das primeiras lagoas. Atualmente, as estruturas antigas representam uma “dívida” ambiental expressiva: 450 mil m³ de esgoto acumulados desde 1983.

Essas lagoas desativadas abrigam uma camada de aproximadamente três metros de lodo cobertos por uma lâmina de água. Ficam na área central da cidade, o que intensifica os impactos ambientais e urbanísticos.

Desta forma, o Ministério Público e o Instituto do Meio Ambiente (IMA) cobram do município destinação adequada para esse passivo. Isso seria benéfico também para o mercado imobiliário, dada a localização estratégica das lagoas.

Além desse passivo histórico, o município enfrentou um problema sanitário mais recente: no início de 2020, houve o rompimento da geomembrana da Estação de Tratamento de Esgoto da Emasa, que é uma lona especial instalada no fundo da lagoa para isolar resíduos do solo, evitando a contaminação ambiental.

Com o rompimento, gases ficaram presos entre a lona e o solo, formando grandes bolhas e gerando risco de contaminação do lençol freático, além de odor intenso para os moradores.

A Emasa comunicou o IMA e realizou ações corretivas: retirou o lodo acumulado, removeu a lona danificada, substituiu o material de base da lagoa e reconstruiu o sistema com uma nova geomembrana.

Diante da ameaça de contaminação do lençol freático, o Ministério Público firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Emasa em 2023. O acordo prevê metas de melhoria no tratamento de esgoto para garantir a qualidade da água do Rio Camboriú, que abastece as cidades de Camboriú e Balneário Camboriú, assim como as praias da cidade, que atraem milhares de turistas todos os anos.

Foto: Divulgação/Emasa

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