Pular para o conteúdo
FERNANDA GHIGNONE CABECA HOJESC

Comer e sentir desconforto não é normal

Você sente que a comida “fica parada” no estômago? Convive com estufamento após as refeições, arrota com frequência, tem excesso de gases ou a impressão de que a digestão leva horas para acontecer? Embora esses sintomas tenham se tornado comuns, eles não são normais e merecem atenção. Em muitos casos, o problema pode não ser o excesso de ácido no estômago, como muita gente imagina, mas justamente a falta dele.

Uma das possíveis explicações para esse quadro é a hipocloridria, condição em que o estômago produz menos ácido clorídrico do que o necessário. Quando isso acontece, o ambiente do estômago deixa de ser suficientemente ácido e a digestão perde eficiência. Embora o ácido gástrico costume ser visto apenas como o vilão da azia, ele é indispensável para iniciar a digestão das proteínas, favorecer a absorção de nutrientes como ferro, cálcio, magnésio e vitamina B12 e ainda atuar como uma importante barreira contra microrganismos que chegam junto com os alimentos.

Quando essa produção diminui, os alimentos permanecem mais tempo no estômago e chegam ao intestino sem terem sido adequadamente preparados para as próximas etapas da digestão. Não por acaso, começam a aparecer sintomas como má digestão, sensação de peso, inchaço abdominal, náuseas, aumento da produção de gases e até alimentos parcialmente digeridos nas fezes. Em algumas pessoas, as consequências vão além do sistema digestivo e podem incluir cansaço excessivo, acne e alergias, reflexo da menor absorção de nutrientes e das alterações provocadas na microbiota intestinal.

Esse ambiente menos ácido ainda favorece a proliferação de bactérias que normalmente seriam controladas pelo próprio ácido do estômago. O resultado é mais fermentação dos alimentos e mais desconforto, criando um ciclo que muitas vezes leva a pessoa a restringir cada vez mais a alimentação, quando, na verdade, o problema pode estar na forma como o organismo está processando esses alimentos.

Diversos fatores ajudam a explicar por que isso acontece. O estresse constante é um deles, pois quando o organismo permanece em estado de alerta, a digestão deixa de ser prioridade. O uso prolongado de medicamentos para reduzir a acidez do estômago, quando realizado sem necessidade ou por tempo superior ao recomendado, também pode contribuir para esse quadro. Além disso, gastrite, infecção pela bactéria Helicobacter pylori e cirurgias no estômago ou intestino estão entre as causas mais frequentes.

É justamente por isso que nem toda sensação de queimação ou má digestão deve ser interpretada como excesso de ácido. Essa talvez seja uma das maiores confusões quando se fala em saúde digestiva. Muitas pessoas recorrem por conta própria aos chamados protetores gástricos, medicamentos que diminuem a produção de ácido no estômago. O problema é que, quando usados sem necessidade ou orientação, podem reduzir ainda mais uma acidez que já está insuficiente.

Depois de entender o papel do ácido gástrico na digestão, fica mais fácil perceber por que nem todo desconforto digestivo deve ser tratado da mesma forma. Sintomas persistentes são sinais de que algo pode não estar funcionando adequadamente e merecem investigação. Antes de concluir que o problema é excesso de ácido ou recorrer à automedicação, é fundamental buscar a verdadeira causa.

Afinal, uma boa digestão não depende apenas do que você come, mas também da capacidade do organismo de transformar esse alimento em nutrientes que possam ser aproveitados. Quando esse processo acontece de forma eficiente, os benefícios vão muito além do conforto após as refeições, refletindo na absorção de nutrientes e na saúde como um todo.

Leia outras colunas da Fernanda Ghignone aqui.