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FERNANDA GHIGNONE CABECA HOJESC

Comecei o ano cansado

mulher

O verão costuma ser associado à leveza, férias e descanso, mas para muitas pessoas o início do ano chega acompanhado de uma sensação persistente de cansaço físico e mental. Após as festas e a quebra de rotina, o corpo parece não responder ao convite de desacelerar, e a mente segue sobrecarregada mesmo longe das obrigações. Esse esgotamento tem explicações fisiológicas, que não recebe a devida atenção por ser confundida com preguiça ou falta de disciplina.

O cansaço do verão tem causas multifatoriais e começa antes mesmo de janeiro. O excesso de compromissos sociais, noites mal dormidas, maior consumo de álcool, refeições irregulares e uma avalanche de estímulos emocionais e digitais sobrecarregam o organismo. O corpo até muda o cenário externo, mas o sistema nervoso segue em estado de alerta, sem tempo real para recuperação. Esse esgotamento pós-festas se soma ao calor intenso, que exige maior esforço da termorregulação e aumenta o gasto energético basal, contribuindo para a sensação de exaustão já nos primeiros dias do ano.

No cérebro, o impacto é ainda mais evidente. As altas temperaturas influenciam a produção e a sensibilidade de neurotransmissores como dopamina e serotonina, diretamente relacionados à motivação, ao prazer, ao foco e ao humor. A queda da dopamina reduz a energia mental e a capacidade de iniciar tarefas, enquanto oscilações da serotonina afetam a saciedade e o equilíbrio emocional. O resultado é uma combinação de cansaço mental e maior tendência a escolhas alimentares piores, geralmente ricas em açúcar e ultraprocessados, numa tentativa inconsciente de buscar prazer rápido.

Do ponto de vista nutricional, algumas estratégias simples fazem grande diferença na recuperação da disposição. Priorizar refeições com baixo índice glicêmico, ricas em antioxidantes e em micronutrientes como vitaminas do complexo B, magnésio e zinco ajudam as vias metabólicas envolvidas na produção de energia celular. Alimentos ricos em compostos fenólicos, como frutas vermelhas e chá verde frio, podem reduzir o estresse oxidativo, melhorando tanto a disposição física quanto a clareza mental. Inserir fontes de tirosina, que é um precursor de dopamina — como semente de abóbora, amendoim, carnes magras e peixes — pode também favorecer uma produção mais estável de neurotransmissores ligados à motivação e ao humor.

A fitoterapia também pode auxiliar nesse processo. Estudos mostram que adaptógenos como Rhodiola rosea e Panax ginseng não apenas aumentam a disposição física e mental, mas atuam em vias relacionadas à produção de energia e à resposta ao estresse, melhorando atenção, memória e resistência física mesmo em estados de fadiga leve a moderada. A Rhodiola, por exemplo, tem evidência científica de modulação de cortisol e suporte à disponibilidade de dopamina e serotonina, promovendo sensação de bem-estar e melhor desempenho cognitivo, e o ginseng pode reforçar a vitalidade física e mental.

Outras estratégias são igualmente indispensáveis. Ajustar o sono, respeitando horários mais regulares e reduzir o uso de telas à noite, é uma das intervenções mais eficazes para restaurar a energia mental. A prática de atividade física moderada, preferencialmente em horários mais frescos do dia, melhora a circulação, estimula a liberação de neurotransmissores ligados ao bem-estar e ajuda o corpo a regular melhor o ritmo biológico. Exercícios muito intensos em excesso, no entanto, podem agravar a fadiga nesse período e devem ser ajustados com cautela.

Começar o ano cansado não é um sinal de fraqueza, mas um alerta de que o corpo e a mente precisam de cuidado real, e não apenas de pausa no calendário. O verão pode sim ser mais leve, desde que haja equilíbrio entre descanso, diversão, estímulos, alimentação e atividade física. Recuperar a energia não significa fazer mais, e sim aprender a sustentar melhor o que já se faz, com escolhas que respeitem o ritmo do organismo.

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