De repente, a internet inteira começou a fazer a mesma pergunta: “Chat, como eu seria nos anos 80?”. E a inteligência artificial responde criando fotografias de uma vida que nunca existiu. Cabelos volumosos, um flash direto, a granulação e as cores ligeiramente desbotadas, roupas que parecem ter saído de um álbum de família e em poucos segundos, ganhamos uma memória de uma época que não vivemos.
E isso me interessa muito enquanto fotografia, pois a fotografia sempre teve uma relação íntima com a construção daquilo que lembramos. Uma fotografia não é apenas um registro do que aconteceu. Ela também escolhe o que mostrar, como mostrar, quem somos diante da câmera e até qual história queremos que aquela imagem conte.
Na história da fotografia contemporânea, Cindy Sherman levou essa questão ainda mais longe. Em Untitled Film Stills, realizado entre 1977 e 1980, ela criava personagens diante da câmera, utilizando figurinos, maquiagem, cenários e referências cinematográficas para produzir imagens que pareciam pertencer a filmes que nunca existiram. O interessante é justamente isso: não eram simples autorretratos, mas construções de identidades possíveis (The Museum of Modern Art).
Então, talvez, a pergunta não seja apenas: “Como eu seria nos anos 80?”. Talvez seja: “Como seria fotografar, de verdade, a pessoa que eu imagino que eu teria sido nos anos 80?”. E aí eu penso que existe uma possibilidade muito mais interessante do que simplesmente pedir uma imagem para uma IA.
Afinal, por que não pesquisar? Buscar fotografias reais da década, vasculhar em revistas, anúncios, álbuns de família, catálogos, retratos de estúdio e fotografias de rua. Observar como as pessoas realmente se vestiam, como posavam, como eram iluminadas e quais câmeras e filmes eram utilizados. Ver como o laboratório interferia na imagem ou não, quais cores apareciam, como o flash era usado e que tipo de cenário fazia parte daquela vida. E então fazer um ensaio.
E essa não seria uma fantasia genérica sobre “os anos 80”, mas uma releitura fotográfica consciente de uma época. Porque existe uma diferença enorme entre colocar um filtro retrô sobre uma fotografia atual e tentar reconstruir a lógica visual de uma fotografia de outra época. Uma coisa imita a aparência, a outra investiga a linguagem. E talvez seja aí que esteja o verdadeiro potencial dessa tendência… em vez de perguntar ao Chat GPT como eu seria nos anos 80, eu poderia perguntar: “Que fotografias dos anos 80 poderiam ter existido se eu tivesse vivido naquela época?”
Depois, sair da tela, escolher a roupa, encontrar o cenário, pesquisar referências e fotografar. Talvez até usar filme analógico. Esperar. Revelar. E descobrir que a experiência de criar aquela fotografia pode ser muito mais interessante do que receber uma imagem pronta, porque a IA consegue inventar uma memória, mas a fotografia permite construir uma experiência para depois lembrar dela.
E existe ainda uma camada que me parece especialmente bonita: se eu fizer hoje uma fotografia tentando reproduzir a linguagem dos anos 80, ela nunca será realmente uma fotografia dos anos 80. Ela será uma fotografia de 2026 olhando para os anos 80. E isso muda tudo. A roupa será uma releitura, pose será uma interpretação, a luz será uma escolha contemporânea e o olhar será meu. Ou seja: não estaremos tentando voltar no tempo, mas sim criando uma espécie de diálogo entre duas épocas.
Talvez seja justamente isso que a febre do “como eu seria nos anos 80?” esteja revelando. No fundo, não queremos apenas saber como teríamos parecido. Queremos experimentar uma versão de nós mesmos que nunca teve a chance de existir. E, para mim, essa é uma ótima razão para pegar uma câmera — e não apenas abrir o Chat.
(Foto: Untitled Film Still #60 – Cindy Sherman, 1980)
Leia outras colunas da Jaine aqui.


