Não sei se você viu, mas ontem a Casas Bahia protocolou recuperação judicial. A dívida chegou a R$ 17,3 bilhões. Prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre. Quase 300 lojas fechadas só em agosto. Três mil demissões. Mais de 20 mil empregos ainda em jogo. O discurso oficial aponta juros altos, crédito restrito e consumo enfraquecido.
Mas vamos falar claro: o que realmente quebrou a casa?
Eu acredito que não é só um fator, mas sim a combinação perfeita de três inimigos.
Primeiro, a mudança do mercado. O varejo físico tradicional perdeu terreno para quem entrega na porta e no mesmo dia. Amazon, Mercado Livre e as plataformas digitais não precisam de aluguel caro em ponto nobre. A Casas Bahia investiu pesado em tecnologia e logística digital desde 2019, mas chegou demorou nessa ação e hoje carrega uma estrutura física inchada. Em 2023 fechou 55 lojas e agora fecha quase 300, isso não é estratégia, isso é o que podemos considerara uma “amputação” de emergência.
Segundo, altos custos de operação. O modelo que a empresa sempre defendeu foi a do carnê, isso gera e do risco sacado. Qualquer compra na loja é feita mediante a uma análise de crédito frágil e rápida, aliada a isso a Selic que subiu e ficou muito alta. O Capital de giro que é o dinheiro que a empresa precisa ter disponível o tempo todo para pagar fornecedores, manter estoque, pagar funcionários e financiar as vendas a prazo sumiu e a empresa precisou pegar dinheiro emprestado a juros altos. Resultado? Em vez do capital de giro de alimentar a empresa, ele começa a matá-la aos poucos.
A recuperação extrajudicial de 2024 renegociou R$ 4,1 bilhões e não resolveu. Porque o problema não era só o tamanho da dívida, mas era o modelo de negócio que gera dívida toda vez que o juro sobe.
Terceiro — e talvez o mais duro — o cliente sem dinheiro. Inflação comeu a renda das famílias que compram geladeira e televisão no carnê. Inadimplência subiu. Quem antes parcelava em 24 vezes hoje pensa duas vezes antes de entrar na loja. O consumo de bens duráveis não voltou com a força esperada. A população não sumiu, ela está endividada e cautelosa.
A empresa diz que vai continuar operando normalmente. Espero que consiga. Tem história, tem marca e tem gente boa trabalhando. Mas recuperação judicial não é mágica. É oxigênio.
Se a empresa não cortar o excesso de estrutura, não reinventar a relação com o cliente e não se livrar da dependência crônica de crédito caro, o oxigênio acaba.
O varejo precisa aprender que tamanho não é força. Força é gerar caixa mesmo quando o juro está alto e o bolso do cliente está vazio.
Imagem: gerada por IA


