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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Carnaval, coturnos e caranguejos

carnaval

Durante algum tempo dividi apartamento no Rio de Janeiro com o futuro fotógrafo Nego Miranda e o pernambucano João Carlos Fernandes, conhecido como Capitão, funcionário da NCR – National Cash Registers, multinacional que liderava o mercado brasileiro de caixas registradoras. Nego havia trabalhado na mesma empresa e os dois alugaram um apartamento em Botafogo, onde me instalei um ano depois.

Do Exército, em que não havia passado de soldado raso, Capitão havia herdado apenas o gosto pelos coturnos. O apelido se deu pela confusão que criava a cada vez que abria uma daquelas máquinas. Virou Capitão Sujeira, depois abreviado. Seu território abrangia a Baixada Fluminense: Magé (incluindo Pau Grande, terra do Garrincha), Conceição do Macabu e outras metrópoles do quilate.

Por isso, nem sempre vinha dormir na zona sul. Quando aparecia era um sufoco. Bebia muito e escutava a 5ª Sinfonia de Beethoven em altíssimo volume, o que nos obrigava a desligar o equipamento e colocá-lo para dormir. Começava, então, outra saga. O Capitão havia adquirido, em criança, o costume de pular da rede e dormir embaixo das camas no chão batido da casa, lugar mais fresco. Manteve o hábito na idade adulta. Como eu dormia em uma cama de campanha, às vezes sentia um corpo se mexendo sob o meu corpo. Era insuportável.

Certa noite de sexta-feira para sábado de carnaval, plena madrugada, com Miranda viajando, fui acordado com batidas na porta. Era o porteiro, havia ligação para mim. Desci correndo – nessas ocasiões sempre pensamos em tragédia na família – mas o problema era de ordem diversa.

Do outro lado um homem zangado perguntou se era da casa de João Carlos Fernandes. Confirmei, para o sujeito despejar sua indignação. Ele tinha um restaurante de caranguejos em Jacarepaguá (“O planeta dos caranguejos – aqui o mundo anda de lado”, soube depois), com um imenso tanque de aço onde caranguejos vivos circulavam. Os fregueses, munidos de um puçá, escolhiam os que iriam degustar. O Capitão, embriagadíssimo, ao ouvir que poderia escolher seus preferidos, entrou no tanque sambando (era carnaval, não esqueçamos). Com seus coturnos, eliminou dezenas de caranguejos, antes de ser retirado à força do tanque. E em seguida, dormiu. No chão, óbvio.

Perguntei o valor do prejuízo. Peixoto, o dono do tal planeta, disse que era de 300 dinheiros. O Capitão tinha a pagar mais 20 de consumo na mesa. Depois de retirar a carteira do bolso do embriagado cliente, o botequeiro encontrou 70 e um cartão com o nome do nosso prédio, endereço e telefone da portaria – item essencial para ter me localizado. Faltavam 250, dinheiro que eu também não tinha.

De manhã peguei um ônibus para Jacarepaguá. Encontrei o ninho dos caranguejos e dei ao Peixoto um cheque no valor da dívida, com vencimento para dali a uma semana. Na quarta-feira eu pediria um vale no trabalho e cobriria o cheque.

Foi aí que senti a ausência do Capitão. Peixoto disse que ele acordou por volta das 7 horas, tirou o pó da roupa, deu bom-dia e entrou em um táxi. Como tinha um sobrinho fuzileiro naval, é possível que tenha ido curtir sua ressaca na Ilha do Governador, deduzi. O sobrinho que arcasse com o táxi.

Levou um mês para quitar o massacre artrópode. Enquanto isso, minhas contas atrasadas ficaram andando de lado no meu bolso, esperando o necessário alívio financeiro para me deixarem em paz.

É por isso que adoro Carnaval.

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