Seria cômico não fosse trágico. Grupos de WhatsApp clamam pelo boicote a bares e restaurantes que fizeram campanha para Lula em Curitiba. Um deles, egresso de ex-alunos do Medianeira e afins, é uma piada. Menos pela obviedade. Mais pela desforra.
Inconformado com o resultado das urnas, o grupo listou mais de 80 estabelecimentos que, supostamente, traíram a causa. No rol consta até o finado ‘O pão que o diabo amassou’, uma padaria divertidíssima que até outro dia revivia a alegria do desbunde, em evidente contraste com a sisudez e o autoritarismo da seita do alfabeto: LGBTQIA+.
Há quatro anos, o chef e empresário Beto Madalosso desmentiu fake news nas redes sociais dando conta de sua disposição de barrar bolsonaristas no restaurante que leva o nome da família. Em seu esclarecimento, ele ironizou: “Eu estou em Curitiba, isso aqui é a Bolso Land”.
E é mesmo. Uma Bolso Land que, agora, não quer promover apenas uma caça às bruxas, mas uma caça às brixas. Quaquaquá.
A finada padaria fechou as portas, mas, ó ingratas, permanece viva em nossos corações. Nas redes sociais, vicejam o paetê e a purpurina que acompanharam sua curta história. Do forno saíam o ‘panetodes’ (em linguagem neutra), a briochona, o ‘cookie brilha’, o ‘lady babka’ e mais um convite insinuante para o almoço: “Vem comer um executivo!”.
O grupo de WhatsApp, tão amarrado a convicções e penduricalhos, talvez degustasse de bom grado a ‘rosca do poder’ com glitter comestível. Ou a Vanessa no pão, acompanhada de chá gelado.
O ex-dono do lugar, é bom que se diga, comeu o pão que o diabo amassou durante a pandemia da covid-19. Quando nada mais parecia dar certo, trocou o diabo pelo viado e deu na padaria. Com kit gay: pão com manteiga, cueca viada e café coado. Tudo por 13 aqués. Para a maricona não perder. Afora o ‘boiolinha’ no pão australiano.
Tanto esmero não devia fazer com que o lugar caísse na boca dessa gente aloprada com sede de vingança. São empresários, ricos de berço, novos-ricos, membros do Judiciário e, consta, até proprietários de rotativos poderosos já não tão poderosos assim.
Se eles não faltaram às aulas em seus colégios chiques, sabem que casos de boicote e segregação preenchem páginas e páginas do pior que a humanidade pode oferecer. Não citemos Hitler, já citado. Não citemos Stalin, já citando. Ora, de nada adianta defender princípios basilares da Constituição na teoria e quebrar cristais na prática. Se é que me entendem.
A lista criada por esse grupo faz juízo de opinião e de vontade. É o pior dos mundos. Não demora e vão criar a polícia do pensamento, o ministério da verdade, o grande irmão e outros quitutes orwellianos.
Se o grupo repudia o cerceamento à liberdade do lado de lá, então é bom que atente à liberdade do lado de cá. Inclusive aquela que diz respeito à livre iniciativa. Que diz respeito à manifestação. Que diz respeito ao livre-arbítrio. Que diz respeito ao direito de ir e vir. Que diz respeito à autonomia de escolha.
É isso ou o totalitarismo que se vê no espelho.
Nesse caso, não há glitter comestível que resolva. Vai dar no pão que o ditador amassou.
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