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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

Buzzcocks é o coração do punk

Love Bites buzzcocks

Lançado em 22 de setembro de 1978, Love Bites é o segundo álbum dos Buzzcocks e representa um momento particularmente interessante da primeira fase da banda. O álbum mostra um grupo que já havia assimilado a urgência do punk, mas começava a descobrir que velocidade e agressividade não precisavam significar simplicidade musical. A grande peculiaridade da banda estava justamente nessa combinação aparentemente contraditória, com guitarras rápidas e cortantes, bateria impaciente e vocais carregados de ansiedade, mas acompanhados por melodias pop extraordinariamente fortes. Formada por Pete Shelley (guitarra e vocais), Steve Diggle (guitarra e vocais), Steve Garvey (baixo) e John Maher (bateria), o álbum foi produzido por Martin Rushent.

Real World é uma excelente maneira de iniciar o álbum porque estabelece imediatamente a sua tensão fundamental, a colisão entre energia punk e composição pop. A guitarra de Pete Shelley entra com uma sonoridade áspera, mas surpreendentemente organizada. Não há aquela sensação de caos absoluto que marcou algumas gravações do primeiro punk britânico. As guitarras são agressivas, mas cada ataque parece cuidadosamente calculado para preservar a melodia.

 

 

Ever Fallen In Love (With Someone You Shouldn’t’ve) é provavelmente a composição definitiva da banda e uma das demonstrações mais perfeitas de como transformar ansiedade emocional em pop-punk. A canção começa de maneira relativamente econômica, mas rapidamente revela sua principal característica: uma melodia vocal extraordinariamente forte sustentada por uma base instrumental extremamente dinâmica. Pete Shelley canta como alguém que está tentando racionalizar uma situação que já escapou completamente ao controle. A guitarra possui uma sonoridade mais limpa e definida do que a encontrada em várias músicas punk contemporâneas. A estrutura harmônica também é particularmente importante. Não depende de um único riff repetido indefinidamente. A bateria é rápida, mas nunca parece descontrolada. Cada virada prepara uma nova seção e cada ataque de caixa reforça a sensação de urgência.

Operator’s Manual é uma das faixas que melhor revelam o lado experimental da banda. A canção possui uma construção mais estranha e menos imediatamente confortável. O título já sugere a utilização de uma metáfora mecânica para representar estados emocionais, e a própria música parece reproduzir essa ideia.A bateria de Maher possui papel fundamental. Seus ataques são bastante definidos, e pequenas mudanças na condução ajudam a separar as diferentes seções.

 

 

Nostalgia introduz uma tonalidade mais melancólica ao álbum. Apesar de manter a velocidade e a energia características da banda, existe aqui uma sensação de desconforto que a diferencia das canções mais imediatamente pop do álbum. A guitarra utiliza mudanças harmônicas que dão à composição um caráter ligeiramente sombrio. A bateria de John Maher novamente merece atenção. As viradas são usadas para ampliar as transições, enquanto a batida principal permanece firme. O baixo de Garvey contribui para a atmosfera através de uma linha que sustenta harmonicamente a canção, mas também cria movimento próprio.

Just Lust recupera a energia mais imediatamente pop da banda. A composição é construída sobre uma sequência extremamente eficiente de guitarra e baixo, enquanto a bateria mantém um ritmo contagiante. Garvey mantém uma linha de baixo relativamente econômica, mas extremamente funcional. O baixo não procura chamar atenção; sua função é fazer a música avançar. A interpretação de Shelley é mais descontraída. Existe menos angústia e mais desejo, mas o vocal mantém aquela característica ligeiramente nervosa que impede a canção de se transformar em pop convencional.

 

 

Sixteen Again é uma das canções mais interessantes do álbum justamente porque combina juventude, nostalgia e energia. A estrutura instrumental é direta, mas a composição possui uma melodia extremamente bem resolvida. Pete Shelley trabalha com frases vocais curtas, que se encaixam perfeitamente na bateria.

Walking Distance é uma das grandes surpresas do álbum. Em vez de seguir a estrutura convencional das faixas anteriores, a banda apresenta uma peça instrumental. Sem o vocal de Shelley para conduzir a narrativa, guitarra, baixo e bateria assumem protagonismo absoluto. A canção possui um caráter quase hipnótico. O riff se repete enquanto pequenas alterações de textura e dinâmica modificam gradualmente.

Love Is Lies é a maior ruptura estética do álbum. Steve Diggle assume o vocal principal e a canção abandona boa parte da agressividade das faixas anteriores. A presença da guitarra acústica cria imediatamente outro ambiente. O contraste é enorme. A voz de Diggle possui características diferentes das de Shelley. É menos aguda e menos ansiosa. A instrumentação relativamente despojada permite que a composição seja avaliada essencialmente pela melodia e pela interpretação.

 

 

Nothing Left recupera o peso e a tensão das guitarras elétricas, mas carrega uma atmosfera mais sombria. A canção possui andamento relativamente moderado para os padrões da banda, permitindo que os riffs tenham maior sustentação. A guitarra trabalha com uma combinação de distorção e repetição. A bateria de Maher é fundamental nesse processo. Ele não precisa acelerar excessivamente. Basta manter uma pulsação firme e introduzir pequenas alterações nos momentos adequados. O vocal de Shelley novamente funciona como elemento emocional. Sua interpretação transmite uma sensação de esgotamento, coerente com o próprio título.

E.S.P. é uma das experiências mais longas e repetitivas do álbum. Sua estrutura trabalha muito mais com atmosfera do que com a concisão habitual do punk. A canção desenvolve um motivo instrumental que retorna várias vezes, permitindo que pequenas alterações de dinâmica e textura assumam importância. A guitarra possui um caráter quase circular. O riff parece continuar indefinidamente. O baixo de Garvey é especialmente importante porque mantém a canção ancorada enquanto a guitarra cria a atmosfera.

O encerramento é provavelmente a escolha mais inesperada do álbum. Late For The Train é uma peça instrumental relativamente longa, construída sobre repetição e desenvolvimento gradual. Em vez de terminar o álbum com um grande refrão, a banda opta por uma espécie de viagem instrumental. A guitarra estabelece o motivo central enquanto baixo e bateria trabalham para criar um movimento contínuo. A duração relativamente extensa é particularmente significativa quando lembramos que estamos diante de uma banda punk de 1978. A banda que havia surgida associada a canções extremamente curtas agora termina seu segundo álbum com uma peça instrumental que explora pacientemente uma ideia. É um final deliberadamente anti-climático e, justamente por isso, interessante.

Love Bites é um daqueles álbuns que se tornam mais interessantes quanto mais atentamente são ouvidos. Os Buzzcocks já haviam entendido algo que muitas bandas punk demorariam anos para perceber que uma canção não precisa ser tecnicamente complexa para ser musicalmente sofisticada. O álbum não possui apenas um som. Ele possui uma dinâmica emocional. A emoção do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.

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