A estreia da banda Boston, com seu álbum autointitulado, foi em 25 de agosto de 1976. Boston é um daqueles álbuns que parecem surgir já completamente formados. Não há, aqui, a sensação de uma banda procurando sua identidade ou testando diferentes caminhos. Desde a primeira faixa, o ouvinte entra em um universo sonoro próprio, com guitarras gigantescas, harmonias vocais cuidadosamente construídas, refrões monumentais e uma combinação incomum de hard rock, pop e refinamento técnico. A grande força criativa por trás do álbum foi Tom Scholz, guitarrista, compositor e arquiteto do som da banda. Seu trabalho vai muito além de simplesmente tocar guitarra. Scholz construiu uma estética baseada em múltiplas camadas, timbres cuidadosamente elaborados e arranjos nos quais cada detalhe parece ocupar um lugar específico. Ao seu lado, Brad Delp fornece a voz que transforma essas composições em algo ainda mais especial: potente, extremamente aguda quando necessário, mas também melódica e delicada. A formação é completada por Barry Goudreau (guitarra), Fran Sheehan (baixo) e Sib Hashian (bateria), embora a construção do álbum reflita principalmente a visão musical de Scholz.
Poucas aberturas de álbum são tão imediatamente reconhecíveis. More Than A Feeling começa com uma guitarra acústica que estabelece um ambiente íntimo e quase nostálgico. É uma introdução relativamente simples e cresce de maneira espetacular. Quando entram as guitarras elétricas, surge aquilo que se convencionou chamar de Boston Sound. O som parece enorme, mas não é simplesmente pesado. Existem várias camadas trabalhando simultaneamente, criando uma parede sonora ampla e brilhante sem comprometer a definição da melodia. O riff principal é um dos grandes exemplos de como Tom Scholz conseguia unir hard rock e pop. As guitarras possuem peso, mas a progressão harmônica é extremamente melódica. Brad Delp entrega uma interpretação extraordinária.
Peace Of Mind é direta e baseada no groove. A introdução de guitarra estabelece imediatamente uma mudança de clima. O riff é mais seco e menos expansivo. A bateria e o baixo entram de forma extremamente precisa, formando uma base que sustenta a canção sem roubar a atenção das guitarras. O solo de guitarra é preciso e melódico. Scholz evita transformar a seção em uma demonstração técnica.
Aqui o Boston apresenta sua composição mais ambiciosa. Foreplay/Long Time funciona como duas peças interligadas. A primeira parte, é essencialmente instrumental e mostra uma faceta mais progressiva da banda. A introdução baseada em teclados cria uma atmosfera quase solene. Aos poucos, o arranjo ganha complexidade. Tom Scholz utiliza diferentes texturas, enquanto a canção cresce em intensidade. A seção instrumental possui uma construção gradual, na qual cada entrada acrescenta uma nova camada. A bateria também desempenha papel importante. Ela não entra simplesmente estabelecendo uma batida convencional. Ajuda a conduzir a música através de mudanças de dinâmica. Depois da longa preparação, a entrada da segunda parte funciona como uma verdadeira explosão. A guitarra assume o comando e Brad Delp entra com uma das performances vocais mais impressionantes do álbum. Alcança notas extremamente altas sem que isso pareça uma demonstração gratuita. Na parte instrumental posterior a banda não abandona a melodia em favor de improvisações excessivas.
Rock & Roll Band chega como uma descarga direta de energia. A canção é curta, objetiva e construída sobre um riff de boogie rock. A guitarra possui uma sonoridade mais crua, enquanto a seção rítmica mantém o andamento acelerado.
Smokin’ é uma das canções mais divertidas e explosivas do álbum. O teclado assume um papel muito mais importante, e o riff de órgão estabelece imediatamente uma atmosfera diferente. Brad Delp está excelente. Sua interpretação possui mais descontração e sensualidade. O vocal é menos introspectivo. A seção rítmica trabalha de forma extremamente eficiente.
Hitch A Ride introduz novamente uma dimensão mais melancólica. Começa de maneira relativamente delicada e utiliza um andamento mais lento para construir atmosfera. Brad Delp está particularmente expressivo. Sua voz possui uma qualidade quase etérea em determinados momentos. A guitarra de Tom Scholz trabalha de maneira diferente das faixas mais pesadas.
Something About You devolve ao álbum uma energia mais direta. A guitarra apresenta um riff vigoroso, e a música avança com um andamento firme. É uma canção mais compacta, mas extremamente eficiente. Brad Delp utiliza novamente sua capacidade de alternar entre registros mais baixos e agudos.
O álbum termina de maneira mais suave e romântica. Let Me Take You Home Tonight reduz parcialmente a intensidade e apresenta uma faceta mais sentimental da banda. A construção instrumental é cuidadosa. A canção começa com uma atmosfera mais delicada, permitindo que Brad Delp assuma o centro. Seu vocal é extremamente melódico e menos agressivo. A interpretação parece mais íntima. As guitarras entram progressivamente. As harmonias vocais novamente desempenham papel fundamental.
Boston é um álbum extraordinário porque consegue reunir qualidades que nem sempre coexistem no rock. É tecnicamente sofisticado. É extremamente produzido. É melódico. É ambicioso. Poucos álbuns de estreia apresentam uma coleção tão consistente de canções. É um trabalho que apresenta uma proposta sonora completa. Completa pelo rock’n’roll. O bom e velho rock’n’roll.
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