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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

Beck e sua inventividade

Beck é sinônimo de inventividade. Seu quinto álbum, Odelay, lançado em junho de 1986, transformou o rock da década. Marcou o salto do músico, do culto alternativo para a atenção mundial. É o álbum em que ele e os produtores The Dust Brothers costuram folk, rock, samples, hip-hop e pop de maneira irreverente e inovadora.

beck odelay

Devils Haircut abre com um riff de guitarra durão, recortado e repetido como um loop. A batida é seca, quase marchante, e Beck despeja versos rápidos, mordazes e divertidos. A produção mistura sampleamento com banda ao vivo, criando um choque. O solo é curto e nervoso. A canção é um petardo.

 

Hotwax troca a dureza do início por um balanço mais lânguido. A batida capta um balanço meio funk, meio country de bar, enquanto teclados e sotaques rítmicos constroem um pano de fundo preguiçoso. É um dos momentos em que Beck prova que o recorte e a economia melódica podem ser tão hipnóticos quanto um riff colossal.

Lord Only Knows é psych-pop, com acordes de órgão e um ar de balada desconstruída. Beck canta com leveza, quase como um sussurro malicioso, e a produção empilha sutilezas: percussões etéreas, samples tímidos e um baixo arredondado. A melodia principal tem aquele jeito de “canção perdida dos anos 60” recriada com técnica de samplers; soa familiar e estranha ao mesmo tempo.

The New Pollution é um dos momentos pop mais puros do álbum, com refrão implacável, arranjo cheio de respiros vintage, e uma produção que sorri para o kitsch dos anos 60. Mas a ironia permanece. Beck canta sobre poluição como se fosse moda e a canção funciona tanto como hit quanto como comentário leve sobre consumo cultural.

 

Mais crua Derelict traz Beck num registro mais sombrio com guitarras espaçadas. Há um sentido obscuro na canção. Arranjos que deixam espaço para eco e respiração e a performance vocal é contida, quase narradora.

Novacane é lenta e arrastada, com percussões eletrônicas e uma melodia que se repete como mantra. A letra monta cenas num interior anestesiado e Beck usa efeitos vocais que o colocam entre a confissão e o comentário. Musicalmente, a faixa é sensual e inquietante.

Jack-Ass apresenta sample de banjo folk convertido em base hip-hop. Beck mostra sua habilidade em pegar elementos rurais e colocá-los numa batida urbana. A canção tem um ar melancólico e um refrão simples, quase folclórico, contrapondo tradição e modernidade. O resultado é surpreendentemente comovente.

Where It’s At é um groove que mistura funk, rap e lounge. A produção é brincalhona e expansiva. A letra é colagem de impressões e slogans, e a música funciona como manifesto de estilo, o lugar onde a cena pulsa, seja ela verdadeira ou inventada. É irresistível para dançar e cantar junto.

 

 

Minus é uma pausa curta, com textura minimalista, linhas de baixo e percussão eletrônica criam um intervalo atmosférico entre duas ondas de canções mais densas.

Sissyneck aborda uma cadência country, mas filtrada por samples e teclados. Tem um riff de slide guitar que se repete como base e um refrão que cresce em camadas. A canção é simultaneamente serena e ligeiramente deslocada. Beck caminha em terreno roots e o efeito é estranhamente confortável.

Readymade é pop-rock curto e afiado. Batida simples, guitarras recortadas e um refrão fácil. A canção soa como uma reflexão sobre produção em série e sobre a cultura de consumo.

High 5 (Rock The Catskills) tem energia e guitarras que soam radiofônicas, quase como trilha sonora de road movie. O título sugere festa, e a música cumpre: ritmo mais acelerado, backing vocals festivos e uma curadoria sonora avassaladora.

Ramshackle abre espaço para improvisos, efeitos, vozes distorcidas e uma sensação de colagem. A letra é fragmentada, a produção se solta, e tudo cria uma sensação catártica.

Diskobox é uma faixa experimental e divertida onde Beck explora o hip-hop alternativo com batidas eletrônicas, efeitos fragmentados e uma estética lo-fi deliberadamente suja. A canção tem uma energia estranha e hipnótica, construída por loops quebrados e sons improvisados que parecem colagens sonoras. O vocal é falado, mais atitude do que melodia, com humor e ironia típicos do músico.

Odelay é um catálogo de pequenas invenções. Canções que parecem feitas de recortes, samples, guitarras, jingles e versos falados e que, não obstante, formam um corpo coerente. O mérito do álbum está em tornar esse pastiche uma linguagem própria. Beck canta como trovador pós-moderno, ora zombando, ora abraçando a tradição. A inventividade do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.

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