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As Mãos

As Mãos

As mãos do homem, em cujas palmas destinos estão traçados, carregam significados desde tempos imemoriais. Marcadas nas paredes de pedra há 20 000 anos dão testemunho da consciência de nossa existência como seres humanos em nosso planeta. Antes da fala, e muitas vezes em sua ausência, as mãos comunicam. Capazes de criação e de todo o fazer são também responsáveis por toda a morte e destruição entre nós. As mãos são, portanto, um símbolo de humanidade e, por essa razão, são tão representadas nas artes.

Em um conto dos Irmãos Grimm, “A donzela sem mãos”, publicado em 1819, além da perda das mãos, a vestimenta que ata a moça simbolizam sua incapacidade de agir e sua dependência do masculino. Inicialmente, seu pai, que decepa suas mãos em troca da riqueza oferecida pelo diabo e, depois, o rei com quem se casa lhe dá mãos de prata, que não são tão eficazes quanto seriam as suas de carne e osso. Ela só consegue restaurá-las, magicamente, ao readquirir sua autonomia, quando fica sozinha na floresta e, ajudada por um anjo, encontra seu próprio eu. Existem duas versões: uma, em que durante os sete anos na floresta suas mãos vão crescendo aos poucos e outra, na análise psicológica do livro “Mulheres que correm com lobos”, onde suas mãos só ressurgem, por mágica, pela força da maternidade, quando precisa salvar seu filho que caiu no rio. Nesse conto macabro, os autores apresentam as mãos como uma metáfora da capacidade de realização do eu.

“A Catedral”- Auguste Rodin -1916 – escultura em pedra – 64 x 29,5 x31,8 cm – Museu Rodin, Paris – fotografia de Jean-Pierre Dalbéra – Wikimedia Commons.

 

Na literatura, na música, no teatro e nas artes visuais, as mãos são personagens constantes e sempre lhes é atribuído grande significado com relação à alma e à essência do ser humano. “As Mãos de Eurídice”, peça de teatro escrita por Pedro Bloch, em 1950, foi considerada o primeiro monólogo brasileiro. Protagonizada por Rodolfo Mayer, foi enorme sucesso que a fez girar o mundo. Em “As Mão de Eurídice”, em contraposição ao conto dos Irmãos Grimm, vê-se a ruina do personagem masculino, Gumercindo Tavares. Fascinado e hipnotizado pela expressividade das mãos de Eurídice – descritas como “fugidas da estátua de Vênus”, suaves e ternas – o personagem é levado à destruição, à perda de tudo o que possuía, desde sua família até seus bens materiais, estes perdidos nas mesas de jogo do balneário Mar del Plata.

 

“A Criação de Adão” – Michelangelo (1475-1564) – (detalhe) afresco-280x570cm – Capela Sistina (1508-1512). Domínio público – Wikimedia Foundation.

Nos dois casos, a meu ver, a diferença é que ela, a donzela sem mãos, as perde forçada pelos homens, juntamente com sua independência. Já no caso de Gumercindo, a perda é por escolha própria. O personagem segue seu destino, levado pelo próprio encantamento pelas mãos de Eurídice. Porém, ele, diferentemente da jovem sem mãos, quando tenta voltar, arrependido, pensando em reencontrar sua família, vê que nada restou. Ela, pelo autoconhecimento e pela maternidade, tem uma segunda oportunidade e suas mãos se desenvolvem.

Ícone da escultura, Rodin produziu várias obras com o tema das mãos, dentre elas, em 1908, “A Catedral”, uma pequena escultura que representa o encontro de duas mãos, que quase se tocam criando um espaço entre elas semelhante ao interior de uma catedral gótica, transmitindo delicadeza e espiritualidade. Já “A Criação de Adão”, de Michelangelo Buonarroti, (por volta de 1511), representa a criação do primeiro homem, extraída de um episódio da Bíblia, do Livro do Genesis, onde a mão de Deus e do homem se tocam. A imagem passa poder, força e domínio. É um afresco que se encontra na capela Sistina no Vaticano, medindo 280x570cm.

 

“Paixão”- Elizabeth Titton – 1997 – alumínio fundido e resina de poliester- Fotografia Vilma Slomp.

 

As nossas mãos, que desde bebes chamam a nossa atenção pelo seu movimento, estão sempre disponíveis para atender as nossas vontades, expressar os nossos sentimentos, realizar nossos sonhos. Elas são ferramentas, ligadas aos nossos desejos e, às vezes, nos surpreendem por irem além dessa vontade consciente. Ligadas ao inconsciente, são capazes de produzir milagres ou desgraças, como acabamos de ver. Ao encerrar essas divagações sobre a relação das mãos com a alma humana e a força de seus significados, apresento, aqui, uma obra produzida por mim nos anos 80, que testemunha essa magia: a magia da criação das mãos pelas mãos, falando do enigma da paixão.

(Ilustração de abertura: ” A donzela sem mãos” conto de fadas alemão compilado pelos Irmão Grimm – detalhe da ilustração do Século XIX de Philipp Grot Johann-Domínio Público -Wikimedia Commons.)

Leia outras colunas da Elizabeth Titton aqui.