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ELIZABETH TITTON CABECA hojesc

As borboletas

124 ilustração maria Sibylla - JPEG

Tendo sido, ao longo do tempo, uma preciosa metáfora de crescimento e transformação para os seres humanos, as borboletas tem povoado nossas vidas com sua incrível beleza e delicadeza que alegram os dias pelos campos, matas e jardins, pousando de flor em flor, ajudando na sua polinização.

No início de fevereiro, estando no meu jardim de mato, observei as primeiras borboletas da estação em dias variados: uma preto e laranja e, dois dias depois, uma outra preto e vermelha. Essas borboletas que sempre chamei de “comuns”, hoje, estão raras. Desde então não vi mais nenhuma, até anteontem, quando vi duas laranjadas bem pequenininhas sobrevoando e pousando em umas florzinhas de mato também bem pequenas. Depois disso, não vi mais nenhuma, considerando que as borboletas de traça não estou contando.

(“Quem não vê bem uma palavra, não pode verbem uma alma” (Fernando Pessoa) – Henrique Töws – bico de pena, aquarela e gouache-66x48cm – 2000- coleção do artista.)

 

Moro aqui nessa mesma casa há quarenta anos, onde ainda existe um “campinho” ao lado. Elas costumavam aparecer em grande quantidade nessa época, quando meu filho João, com uma redinha que fiz para ele, corria e pulava tentando pegar alguma para uma coleção. Assim como os vagalumes que iluminavam os jardins noturnos, desapareceram. Hoje, quando vemos um, já há motivo de comemoração. Imagino que entre outas causas os herbicidas sejam os grandes responsáveis por essa extinção.

Mais para março, costuma aparecer a grande borboleta azul, a “Morpho”, que passa batendo lentamente suas grandes asas por entre as árvores, já que ela habita o bosque perto do rio. Consta que vive por três meses. Junto com ela costumavam aparecer duas ou três grandes borboletas amarelas e uma, também grande, com desenhos verdes em um tom bem escuro. Todas maravilhosas, sempre me fizeram sorrir ao passar descuidadamente em frente às janelas em seus voos nos dias ensolarados, navegando por suas curtas vidas.

 

Sem título - fotografia de Hay Graphiks - 2017 - borboleta localizada na Fazenda Santo Antônio do Tesourão - Palmeira , PR.
(Sem título – fotografia de Hay Graphiks – 2017 – borboleta localizada na Fazenda Santo Antônio do Tesourão – Palmeira , PR.)

 

Esses lindos insetos tem inspirado incontáveis artistas, pintores, desenhistas, gravadores e ilustradores que, encantados por sua beleza ou interessados em melhor conhecê-los, registraram suas formas, cores e suas vidas em transformação. Dentre tantos, me chamou a atenção uma mulher, cuja vida e obra tive a oportunidade de conhecer em uma conversa sobre borboletas. Maria Sibylla Merian, nascida na Alemanha, em 1647, dedicou sua vida a conhecer e a representar, entre outros insetos, as borboletas. Ela o fazia em pranchas de papel ou em telas de linho.

Quando adolescente colecionou e também criou bichos da seda. Sibylla documentou os processos de metamorfose das borboletas junto à sua planta hospedeira em seu ciclo de vida. Foram por volta de 186 espécies da Europa. Mais tarde, já vivendo na Holanda, foi com sua filha para a colônia holandesa, o Suriname, para registrar insetos tropicais.

Publicou Metamorphosis insectorum Surinamesium, em 1705. Faleceu em Amsterdã, em 1717, aos sessenta e nove anos. Uma coleção de suas obras foi publicada postumamente por sua filha. Dá para imaginar, naquela época, uma mulher, no Suriname, no meio do mato, coletando e desenhando insetos? Acho fantástico! Só mesmo uma pessoa muito especial.

Especial como o são as borboletas, que ela, tão lindamente, registrou para o nosso conhecimento e prazer estético e que, ao que parece, as futuras gerações só conhecerão por meio dos livros ou outros registros mais contemporâneos.

 

"Leão e Azul"- Robert Vavra (texto) e Fleur Cowles (ilustração) - 1974 - Editora William Morrow & Co.- ISBN 13:987-0688611644 - todos os direitos reservados.
(“Leão e Azul”- Robert Vavra (texto) e Fleur Cowles (ilustração) – 1974 – Editora William Morrow & Co.- ISBN 13:987-0688611644 – todos os direitos reservados.)

 

Já as lindas borboletas, elas mesmas, serão apenas motivo de lendas e histórias, como “Lion and Blue”, de Robert Vavra, com ilustrações de Fleur Cowles, um best seller que narra uma alegoria sobre o amor, cujos personagens são o leão e a borboleta brasileira chamada “Azul”. Um dia, já cansado na floresta, ele vê a borboleta (Morpho) pela primeira, vez e por ela se apaixona. Assim, ela a se torna o tudo em sua vida. São um lindo texto poético e uma ilustração dos sonhos!

A partir desse belo amor, desejo que muitas borboletas, além das azuis, sobrevivam e inspirem tantas outras grandes paixões, além de cumprir um de seus mais importantes papéis na natureza que é o de ajudar na polinização das flores.

(Ilustração de abertura: “Prancha #23 – “Musa paradisiaca”- Maria Sibylla Merian – 1705 – Museu de Arte do Bowdoin College – ME, Estados Unidos.)

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