Tive a ventura de estudar no Colégio Estadual do Paraná na década de 1960. Melhor ainda, tive a felicidade de compor uma turma privilegiada, durante os três anos do segundo grau.
No que era chamado de “científico”, o Estadual mantinha cursos voltados para quem pretendia fazer vestibular de engenharia (Ciências Matemáticas), medicina (Ciências Biológicas), direito (Curso Clássico) e para quem não sabia o que fazer (Curso Eclético).
A nossa turma sabia muito bem o que fazer: tudo o que era permitido e o que não era. É que tínhamos costas quentes. Naquele grupo estavam filhos dos deputados federais Fernando Gama e Maia Neto, dos deputados estaduais Edgar Távora, Vidal Vanhoni e Renato Cunha, o filho da chefe do cerimonial do Palácio Iguaçu, Luiza Gomm, o filho do diretor-geral da Assembleia Legislativa, Carlos Gurgel do Amaral Valente e o primogênito do professor Victor Franklin, um dos símbolos do Colégio. Além disso, havia membros de famílias curitibanas de prestígio, como Vicente Ciccarino Neto e Omar Camargo Filho que, junto com Heitor Valente, desfilavam em seus próprios carros. Eram mestres da dissimulação e do sarcasmo, beirando a mordacidade.
Também faziam parte da turma Luiz Fernando de Queiroz, hoje advogado e empresário bem-sucedido; José Antônio Salvadori, exilado de Joaçaba, onde seu pai andava fugido por fazer parte de um dos grupos dos 11, milícia brizolista contra o governo militar; o ator Antônio Sérgio Busnardo; Gley Leichsenring, depois funcionário da Delegacia Regional do Trabalho; Álvaro Junqueira Nunes, advogado e empresário; Adão Laslowski, advogado do estado (que foi amarrado no ponto de ônibus e salvo por um motorista, depois de implorar por socorro com o que lhe sobrou de voz, já que tinha sido enforcado com a gravata), e o atualmente multimilionário Alceu Elias Feldmann, controlador da Fertipar, na época apelidado de Padre, por envergar sempre a mesma japona marrom fechada até o pescoço.
Dentro do nosso grupo restrito tínhamos duas alas. A conservadora, comandada por Edgar Távora Júnior, com Werney Serafini (dono de uma camionete, a Jezebel) e Jarbas Sponholz, e a subversiva, liderada por Penrose Checchia Franklin, com Ruy Cunha Sobrinho e eu. A convivência era muito pacífica, à exceção do período em que estivemos rompidos, consequência de uma pixação que fizemos no quadro-negro, falando mal do governo militar. Tipo “A borracha é nossa, mas está na mão da polícia”.
Como a turma foi ameaçada de suspensão se os responsáveis não se denunciassem, acabamos nos apresentando – e levando três dias de gancho.
Penrose era dotado de inteligência privilegiada, dava o tom na turma completa, colocando apelidos e inventando todo tipo de desordem.
Portanto, molecagens eram comuns. O professor Côvero, de Geografia, costumava ser bombardeado com bolas de massinha, surrupiadas do Centro de Artes Manuais, sempre que ia ao quadro-negro escrever o nome de algum país ou acidente geográfico: ele não dizia “canyon”, falava “canhão”.
Numa daquelas aulas, Nilo Carlos, o Nilo Tarado, e um rapaz muito simples de Colombo, Antônio Cavalo, combinaram uma corrida de moto, sentados em suas carteiras. Levantaram a bunda, posicionaram as mãos como se estivessem manejando os controles e começaram a fazer barulho de motor acelerando. Então levantei com um lenço na mão e dei a largada – exatamente quando o professor se virou para a turma.
– Você aí, fora da sala!
– Professor, não fiz nada. Só dei a largada!
A turma explodiu em gargalhadas e eu fui me esconder no banheiro, para não ser encontrado por algum inspetor e levado à diretoria.
Também enterramos o professor Heraclés Messias, de Filosofia. Com uma caixa de uvas como esquife e Henrique Gomm de capuz à frente, rezando em um arremedo de latim, cruzamos os corredores maldizendo o indigitado mestre pelo crime de atentar contra a irreverência dos seus alunos.
Entre os professores, Antônio Santos Filho, de História, uma sumidade; Ubiratan Macedo, de Filosofia; Maria Inês Guimarães, de Português; e a professora Isolde, de Inglês, responsável pelo Sing Song, grupo misto de canto em que convivíamos com a meninas da tarde, como Vilma Resende, hoje desembargadora aposentada, e Maria Amélia Quarengui..
Ao fim do terceiro ano, todos se viram aprovados – alguns rinham embora antes, em busca de um colégio menos rigoroso para garantir o diploma exigido para o vestibular.
Então, para encerrar aqueles três anos fantásticos, resolvemos jogar sabão em pó no repuxo. Foi a apoteose, com aquela espuma branca a crescer como se dela fosse brotar o próprio Netuno.
Ameaçaram nos negar o certificado de boa conduta, necessário para inscrição nas faculdades. Alguém checou, não havia tal exigência. Enfim, concederam os atestados – sabe-se lá por obra de qual autoridade, entre as tantas que protegiam nossas quentíssimas costas.
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