Mais de três meses depois do prazo anunciado pelo próprio Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a prestação de contas detalhada sobre os recursos utilizados na produção de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, ainda não foi apresentada publicamente.
O senador e candidato a presidente pelo PL nas eleições de 2026 havia informado, em 19 de maio, que solicitara à produtora responsável pelo longa um relatório sobre a utilização e o destino do dinheiro e estabelecido prazo de 30 dias, encerrado em 19 de junho.
A promessa ocorreu durante a repercussão das revelações sobre a participação de Flávio na busca de recursos para financiar o projeto.
Reportagens mostraram que o senador tratou diretamente com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, sobre o financiamento do filme.
Segundo o Estadão, foram negociados valores que chegaram a cerca de R$ 134 milhões, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões teriam sido efetivamente repassados por meio da Entrepay.
Na ocasião em que anunciou a medida, Flávio afirmou que havia solicitado à produtora um relatório detalhado para esclarecer a destinação dos recursos. A prestação de contas passou, portanto, a ser uma iniciativa anunciada pelo próprio senador como resposta pública às dúvidas levantadas sobre a operação financeira envolvendo o filme.
Quando o prazo terminou, porém, o documento não foi divulgado.
Aguardando a Go Up Entertainment
Em entrevista concedida justamente em 19 de junho, Flávio afirmou que ainda aguardava a Go Up Entertainment apresentar as informações. “Estou esperando a própria produtora apresentar a prestação de contas”, disse ao SBT News, segundo reportagem do Broadcast/Estadão. Na mesma ocasião, alegou que caberia à empresa demonstrar os gastos e as contratações realizadas para viabilizar a produção.
Em julho, a cobrança continuava sem resposta. O UOL informou em 10 de julho que, 22 dias após o término do prazo, nem Flávio nem a Go Up haviam divulgado o detalhamento sobre a utilização dos recursos. Reportagem de O Globo, reproduzida pelo InfoMoney, registrou que a assessoria do senador passou a dizer que o assunto não era responsabilidade da pré-campanha e que os questionamentos deveriam ser encaminhados à produtora. A Go Up não respondeu ao jornal.
Perícia de R$ 75 milhões não equivale à prestação prometida
Antes mesmo do vencimento do prazo anunciado por Flávio, a Go Up apresentou à investigação policial em São Paulo uma perícia privada, contratada pela própria defesa da empresa, segundo Folha de S.Paulo e CNN Brasil. O levantamento afirmou que Dark Horse teria custado cerca de US$ 13,4 milhões, aproximadamente R$ 75 milhões, e sustentou que não houve utilização de recursos públicos na produção.
O documento, contudo, não corresponde ao relatório público detalhado que Flávio havia prometido. Segundo a Folha, a perícia não identificava Daniel Vorcaro nem outros eventuais financiadores do longa. Dessa forma, permanecia sem divulgação pública o detalhamento da origem dos recursos e de sua destinação — justamente o ponto que a prestação de contas anunciada pelo senador pretendia esclarecer.
A ausência dessas informações ganhou importância adicional porque a produtora entrou no radar de uma investigação da Polícia Civil de São Paulo. A Go Up foi alvo de operação relacionada a suspeitas envolvendo recursos de um contrato de R$ 108 milhões entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Gama, também ligada à produtora. A investigação apura, entre outros pontos, suspeitas de irregularidades no contrato e eventual emprego de recursos públicos. Flávio negou relação entre a investigação e Dark Horse.
Em agosto, documento continua sem divulgação pública
Nesta quinta-feira, 20 de agosto, Flávio voltou a ser questionado sobre Dark Horse. Segundo o UOL, o agora candidato à Presidência classificou o episódio como “página virada” e afirmou que a prestação de contas teria sido realizada e estaria “tudo certinho”. O senador, entretanto, não apresentou publicamente, durante a abordagem registrada pelo veículo, o relatório detalhado que havia prometido em maio.
Também nesta quinta-feira, coluna do UOL registrou que Flávio ainda não apresentou a prestação de contas prometida e relembrou que cerca de R$ 61 milhões teriam sido obtidos para o projeto, diante de um valor inicialmente solicitado superior a R$ 130 milhões.
Assim, até 20 de agosto, há uma diferença entre a afirmação do senador de que as contas estão regulares e a transparência pública originalmente prometida. O compromisso anunciado em maio não era apenas afirmar que os gastos estavam corretos, mas obter da produtora um relatório detalhado sobre a utilização e o destino dos recursos.
Mais de 60 dias depois do vencimento do prazo de 19 de junho, esse detalhamento continua sem ter sido tornado público, segundo as informações disponíveis na imprensa brasileira.
Imagem: gerada por IA
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