A primavera ainda não chegou. Ou talvez já tenha começado, mas a gente ainda não tenha percebido…
Existe um instante estranho entre uma estação e outra. As árvores ainda guardam algumas marcas do frio, a luz muda devagar, os dias se alongam quase sem pedir licença. E, em algum lugar, uma flor começa a se preparar antes mesmo de aparecer.
É esse intervalo que me interessa.
A fotografia costuma ser entendida como o registro de alguma coisa que aconteceu. Um instante que passou, uma paisagem que esteve diante de nós, alguém que esteve ali. Mas algumas fotografias parecem fazer o contrário: elas nos colocam diante de alguma coisa que ainda está acontecendo.
Rinko Kawauchi tem um olhar particularmente atento para esses pequenos acontecimentos. Em suas imagens, uma flor, um reflexo, uma gota d’água ou um gesto cotidiano podem carregar a sensação de que estamos vendo alguma coisa nascer, mudar ou desaparecer.
Talvez seja por isso que fotografar tenha tanto a ver com esperar. Esperar a luz mudar… uma flor abrir, alguém olhar para a câmera, o instante em que alguma coisa, quase imperceptivelmente, deixa de ser o que era.
A primavera talvez seja menos sobre florescer do que sobre tudo aquilo que acontece antes: O botão fechado, a primeira folha, a luz mais quente atravessando a janela, mas o inverno ainda está presente na paisagem.
Fotografar esse momento é tentar guardar não exatamente uma transformação, mas a sua iminência. Porque há coisas que só conseguimos perceber quando ainda não aconteceram. E talvez a fotografia exista justamente para esse intervalo: quando alguma coisa já não é o que era, mas ainda não se tornou o que será. Antes de florescer…
(Imagem: Early Works, Rinko Kawauchi, 1997)
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