“Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração…”
“Canção da América” de Milton Nascimento e Fernando Brant (1980).
Dizem que amigos, os verdadeiros, se tem poucos. Não sei se os classificaria assim: verdadeiros, médios ou falsos. Acho que amigos a gente encontra por acaso, pela vida, quando aos poucos, do nada, surgem compatibilidades, interesses comuns, ou apenas um estar confortável ao lado de determinada pessoa. Ao rirem das mesmas coisas, mesmo não vindo dos mesmos lugares, ou tendo as mesmas origens, os amigos se encaixam. Não como os casais, que buscam o amor recíproco, um olhando para o outro com exclusividade, mas com uma soltura mais alegre e enriquecedora, que permite diferenças no olhar para o mundo, mas com uma vontade de conhecer um ao outro, respeitando as diferenças. De onde viria essa magia? Não sei explicar.
Nas artes, encontramos a amizade entre irmãos, como a de Van Gogh e Theo, que ficou conhecida por meio da publicação da correspondência entre eles quando, após suas mortes, foi divulgada por Jo, a viúva de Theo. Um produzia sua arte e o outro tentava vender as obras, além de apoiar sua produção com conselhos e envio de materiais de pintura.
Uma amizade bem mais estranha é a dos personagens das tirinhas de jornal criados por Bill Watterson, no período entre 1985 e 1995. Calvin e Hobbes (Haroldo no Brasil) – um menino e seu tigre de pelúcia – compartilham e comentam momentos da vida com um olhar filosófico para os acontecimentos. Consta que seus nomes foram inspirados nos pensadores João Calvino (1509-1564), teólogo francês que liderou a reforma protestante, e Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês conhecido por sua visão pessimista da natureza humana. Em suas aventuras, o menino de seis anos tem como contraponto, assim como em muitas amizades, uma visão mais realista de seu amigo felino.
Algumas amizades ficaram marcadas por enriquecer a nossa cultura, como a de Mario de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, amizade marcada por uma rica correspondência que durou mais de vinte anos e que, mais tarde, foi reunida nos livros:” A Lição do Amigo” e “Carlos & Mário”. Suas cartas deixaram transparecer os dilemas e tantas questões que marcaram o modernismo na arte brasileira.
Ter um amigo é saber que se pode confiar, que, mesmo sem motivo aparente, há uma admiração mútua e que, mesmo após grandes distâncias no tempo ou na geografia, no reencontro são como os elos de uma corrente que se sustentam e se estruturam, como se para sempre se pertencessem, independentemente das distâncias. As lembranças das conversas, das risadas, são como o convite que nos apresenta a poesia de Drummond que, aqui, compartilho um pedacinho.
“Convite Triste” de Carlos Drummond de Andrade.
Meu amigo, vamos sofrer,
Vamos beber, vamos ler jornal,
Vamos dizer que a vida é ruim,
Meu amigo, vamos sofrer.
Vamos fazer um poema
Ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
Por muito tempo, muito tempo
E dar um suspiro fundo
Ou qualquer outra besteira”…
(Ilustração de abertura: Sepulturas de Vincent e Théodore Van Gogh. Foto de Heric SAMSON- Conteúdo livre da Wikimedia Foundation.)
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