
A agenda ESG atravessa uma fase de transição. Algumas empresas, de fato, recuaram no ímpeto de adotar boas práticas ambientais, sociais e de governança — não por opção, mas pressionadas por investidores e governos. Esse movimento enfraquece a ação coletiva necessária para avanços estruturais mais concretos. “Mas os dados mostram que, no nível individual, a maioria das empresas não está abandonando seus compromissos de sustentabilidade”, escrevem, em artigo na Harvard Business Review, o professor Neil Hawkins e a consultora Kelly Cooper.
No campo das boas práticas, o setor empresarial tenta se adaptar às exigências legais e regulatórias que demandam extensas comprovações de aderência à agenda ESG. A boa notícia é que esse modelo pode evoluir para um foco mais seletivo, centrado em temas realmente críticos para cada negócio e para a sociedade. É a lógica da “dupla materialidade”, que considera tanto o impacto da empresa no mundo quanto os riscos do mundo sobre a empresa. Se essa mudança se consolidar, pode significar o fim dos relatórios excessivamente volumosos e a ascensão de uma nova métrica: a relevância efetiva das iniciativas.
A União Europeia oferece um exemplo dessa tentativa de equilíbrio entre ambição climática e redução de custos regulatórios. Ao revisar normas e a taxonomia da produção sustentável, busca simplificar obrigações sem desmontar o arcabouço ESG. O movimento responde a pressões econômicas e à necessidade de preservar competitividade, mas enfrenta o desafio de evitar que a “desburocratização” resulte em retrocesso climático.
Paralelamente, reguladores da UE, do Reino Unido e dos EUA apertam o cerco ao greenwashing, com multas, retirada de campanhas e investigações sobre alegações ambientais imprecisas. Expressões genéricas como “sustentável” ou “eco-friendly” tornaram-se arriscadas na ausência de comprovação técnica. O ESG entra, assim, na fase da precisão: menos marketing, mais evidências mensuráveis.
Europa injeta €2,9 bilhões em CCS
O “momento CCS” ganhou força após a União Europeia destinar € 2,9 bilhões do Fundo de Inovação para 61 projetos de descarbonização, muitos deles voltados à captura e armazenamento de carbono (CCS). Entre os contemplados, há hubs de CO2 e projetos de transporte entre países no Mar do Norte, que podem estruturar redes de atendimento a setores industriais inteiros. No mesmo sentido, o Reino Unido aprovou o Padeswood CCS Project, capaz de capturar 800 mil toneladas de carbono por ano em uma fábrica de cimento — um avanço expressivo em um dos segmentos mais difíceis de descarbonizar.
Quanto CO2 o mundo pode armazenar?
Crescem, porém, pesquisas que indicam que está superestimada a capacidade global de estocar CO2 no subsolo com segurança. Isso não invalida a tecnologia, mas reforça a necessidade de mais estudos, monitoramento e planejamento. O debate recupera um ponto essencial: CCS não é solução isolada, mas uma ferramenta complementar dentro de um portfólio amplo de políticas climáticas.
Além disso, os projetos ainda enfrentam altos custos e incertezas regulatórias. Mesmo assim, a tecnologia avança porque segue sendo considerada indispensável para setores que não conseguem reduzir emissões apenas com energias renováveis ou eficiência energética.
Clima no Estatuto da Cidade
O projeto de lei 161/24, em tramitação na Câmara dos Deputados, propõe incluir resiliência climática como diretriz da política urbana. O parecer aprovado na Comissão de Desenvolvimento Urbano incorpora o tema ao Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01), determinando que municípios elaborem planos para enfrentar enchentes, ondas de calor, ocupação de solo e eventos extremos. A proposta coloca a adaptação climática no centro do planejamento urbano brasileiro, tornando-a praticamente mandatória para gestores locais.
Selos verdes
A pauta climática de Brasília também avança sobre a esfera empresarial com proposições legais que instituem selos e programas de certificação. Uma delas cria o Programa Nacional de Infraestruturas Sustentáveis e Resilientes (PNISR), que inclui um selo climático para grandes obras e permite acesso a recursos do Fundo Clima para projetos certificados. O objetivo é estimular empreendimentos mais seguros, menos emissores e preparados para eventos extremos. Outra iniciativa institui o Selo COP30, voltado a reconhecer empresas com boas práticas ambientais, eficiência energética e ações compatíveis com a economia verde.
Exportação verde
Outro eixo em discussão no Congresso trata da modernização do Programa de Financiamento às Exportações (PROEX) para priorizar bens e serviços da chamada indústria verde. O foco está em setores que contribuam para a mitigação das emissões, a transição energética, a bioeconomia e a recuperação ambiental. Segundo o parecer que autorizou o avanço da proposta, alinhar a política de financiamento às exportações com a agenda de sustentabilidade e com a neoindustrialização verde é não apenas pertinente, mas estratégico para o país.
(Foto: FreePIK)
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