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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

Ace Frehley deixou o seu legado

Consternado com a morte de Ace Frehley, ex-guitarrista e membro fundador do Kiss, essa coluna não poderia deixar de homenageá-lo. Ace foi uma das figuras marcantes do hard rock e um exímio guitarrista, tendo uma sólida carreira, tanto no Kiss quanto solo. Seu primeiro álbum solo, parte do projeto no qual todos os integrantes da banda lançaram, em setembro de 1978, é de uma vitalidade e técnica indiscutíveis. Foi o único dos quatro álbuns solo que emplacou um single nas paradas. Foi produzido pelo próprio Ace e Eddie Kramer. É incrível a sua sonoridade.

 

Ace Frehley Ace Frehley 1978

A abertura com Rip It Out, é rude e direta: riff enxuto, andamento rápido e um vocal meio rouco que casa bem com a atitude de Ace. A canção funciona como declaração de independência, guitarra na frente, solo curto e efetivo, refrão que gruda e um feeling de barulho controlado. É puro rock’n’roll com virilidade punk do final dos anos 70.

 

 

Em Speedin’ Back To My Baby, Ace mostra seu lado mais melódico e também sua familiaridade com o rock urbano de garagem. A faixa tem um groove espetacular, backing vocals que abrem espaço para um refrão bem pop-rock e um solo magistral.

Snow Blind soa mais densa. Riffs pesados, vocal mais dramático e um clima quase sombrio. A letra e o tom transmitem tensão e Ace usa o timbre e efeitos na guitarra para criar camadas.

Um instrumental com destaque técnico e muita ênfase no timbre da guitarra. Ozone serve como vitrine da técnica de Ace: toques de wah, fraseados espaciais e uma produção que deixa a guitarra respirar. A faixa mostra que ele não queria apenas ser um cantor que tocava guitarra, queria que suas linhas soassem distintas e com identidade própria.

 

 

What’s On Your Mind? é uma canção com pegada quase funky-pop, graças a um riff sincopado e backing vocals que criam textura. A composição é enxuta, com refrão fácil e arranjo que põe a guitarra em posição de diálogo com a percussão.

New York Groove é o momento em que Ace se torna, de fato, uma figura independente dentro do universo do rock. Escrita por Russ Ballard e gravada originalmente pela banda Hello. Desde o primeiro acorde, a faixa exala personalidade: o ritmo cadenciado, marcado por palmas e batidas simples. É como se o ouvinte estivesse caminhando pelas ruas de Manhattan à noite. O riff principal, econômico e irresistível, mostra que Ace sabia exatamente o poder de uma boa repetição sem virtuosismo desnecessário, apenas atitude e balanço. A interpretação vocal é descontraída, com Ace cantando de maneira quase falada, carregada de sotaque nova-iorquino e uma autoconfiança que transforma a letra em uma celebração da própria identidade. Musicalmente, o arranjo é inteligente. A guitarra principal alterna acordes secos com pequenas frases cheias de groove, e o baixo acompanha com precisão, reforçando o balanço quase funk-rock que permeia a canção. Os efeitos discretos dão um toque de sofisticação sem roubar o clima de diversão. O solo de Ace, curto e expressivo, é o tipo de fraseado que resume sua estética: melódico o suficiente para grudar na mente. Não à toa, tornou-se o símbolo do álbum e uma das músicas mais lembradas de toda a carreira solo do guitarrista.

 

 

I’m In Need Of Love é uma balada rock com sensibilidade. O álbum desacelera e Ace investe em melodias mais sustentadas. A produção abre espaço para linhas de guitarra limpas, pequenas ornamentações e uma condução vocal que tenta alcançar um registro mais emotivo.

Mais crua e direta, Wiped-Out volta ao terreno do rock energético com uma pegada de garagem. Ritmo insistente, fraseios curtos e um solo arrasador. A faixa é quente, curta, pronta para o público cantar junto.

O encerramento é um pouco mais expansivo. Faixa mais longa com passagens instrumentais. Fractured Mirror mistura momentos de solo-relâmpago com trechos de construção rítmica. É um final que privilegia a guitarra em diferentes facetas: melódica, agressiva e reflexiva. Fecha o álbum deixando a impressão de que Ace quis mostrar amplitude, não só canções curtas e imediatas, mas também espaço para desenvolver ideias.

O álbum Ace Frehley é uma aula de como fazer um álbum simples, porém conciso e bem estruturado melodicamente. Ace toca guitarra, baixo e canta com um domínio de fazer inveja aos demais membros do Kiss. Ninguém esperava isso dele. É um verdadeiro álbum de rock’n’roll. Do bom e velho roc’n’roll.

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