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AC/DC se afirmando no hard rock

AC/DC se afirmando no hard rock

Dirty Deeds Done Dirt Cheap ACDC

Poucos álbuns representam tão bem a fase inicial do AC/DC quanto Dirty Deeds Done Dirt Cheap. Terceiro álbum de estúdio da banda, lançado em 20 de setembro de 1976, o disco registra a banda ainda distante da dimensão gigantesca que alcançaria poucos anos depois, mas já completamente consciente de sua fórmula, com guitarras secas e cortantes, bateria pesada, baixo arrasador, riffs simples e, acima de tudo, a personalidade irreverente do vocalista Bon Scott. O álbum foi produzido por Harry Vanda e George Young e reúne, além de Bon Scott, Angus Young e Malcolm Young nas guitarras, Mark Evans no baixo e Phil Rudd na bateria. Essa formação merece atenção especial: é uma das encarnações mais importantes da banda, porque combina a guitarra solo explosiva de Angus, a base rítmica quase indestrutível de Malcolm e Evans e a bateria extremamente precisa de Rudd com a voz absolutamente particular de Scott.

Capa da versão australiana

 

Dirty Deeds Done Dirt Cheap, a faixa-título, é praticamente um cartão de visitas. O riff inicial de Angus Young é simples, porém deixa espaço para que a bateria e o baixo estabeleçam o peso da composição. E então aparece Bon Scott. O grande mérito de sua interpretação é transformar a canção em uma espécie de pequena história de humor negro. Ele assume a persona de um sujeito que oferece seus serviços para resolver problemas alheios, e faz isso com uma mistura de ameaça, ironia e diversão.

 

 

Love At First Feel mantém o espírito da abertura, mas apresenta a banda mais voltada ao rock’n’roll tradicional. A guitarra de Angus possui aquele ataque seco característico, enquanto Malcolm mantém a base extremamente firme. O riff não procura sofisticação. Ele existe para estabelecer o ritmo e deixar Bon Scott comandar a narrativa. O baixo de Mark Evans mantém o groove e ajuda a preencher os espaços deixados pelas guitarras. Angus novamente aparece no solo, e o mais interessante é que ele não tenta transformar a seção instrumental em um momento de exibição técnica. Seu fraseado é curto, agressivo e extremamente melódico dentro da linguagem do blues.

Big Balls é a faixa que melhor demonstra o senso de humor de Bon Scott. A guitarra possui uma abordagem mais arrastada. O riff é simples, mas cria uma espécie de marcha debochada. O elemento mais importante, entretanto, é o vocal. Scott interpreta a música como se estivesse apresentando um personagem diante de uma plateia. Os backing vocals ajudam a criar a sensação de uma apresentação coletiva. Angus e Malcolm trabalham de maneira econômica. Não há necessidade de solos longos. Phil Rudd também toca com enorme contenção.

 

 

Rocker é o momento em que a banda pisa no acelerador. O riff entra imediatamente, a bateria dispara e Angus Young assume o controle. É uma composição extremamente curta e concentrada. É rock’n’roll em velocidade máxima.

Problem Child é uma das composições mais fortes do álbum. O riff possui uma característica que seria fundamental na evolução da banda. A simplicidade com enorme impacto. Malcolm Young cria a base e Angus acrescenta suas intervenções de guitarra. O vocal possui mais agressividade e o refrão é construído para ser cantado em conjunto. A seção rítmica novamente é impecável. Mark Evans fornece um baixo encorpado e Phil Rudd toca de maneira precisa, sem exageros.

Em There’s Gonna Be Some Rockin’, a banda volta ao rock’n’roll mais direto. Não existe preocupação em criar uma narrativa complexa. A canção celebra o próprio ato de tocar rock. Bon Scott parece estar se divertindo com a situação. Sua voz possui uma energia quase conversacional, e os backing vocals ajudam a ampliar o caráter coletivo. A guitarra de Angus funciona como elemento de ligação entre os versos. Ele não precisa tocar constantemente. Malcolm novamente demonstra por que sua importância dentro da banda não pode ser subestimada. Seu trabalho é menos vistoso, mas é ele que cria o chão sobre o qual Angus pode construir seus solos e riffs.

Com quase sete minutos, Ain’t No Fun (Waiting Round To Be A Millionaire) é uma das composições mais extensas do álbum. E a duração faz sentido. A canção funciona quase como uma pequena crônica sobre a vida de uma banda de rock. É uma das letras em que Bon Scott consegue misturar humor e realidade de maneira particularmente eficaz. É construída sobre um riff pesado e relativamente lento.

 

 

Ride On é a grande surpresa do álbum. Depois de tantas faixas rápidas e agressivas, a banda reduz drasticamente o andamento. A guitarra é muito mais limpa e espaçosa. O blues aparece de maneira muito mais evidente. Mark Evans cria uma linha de baixo discreta. Phil Rudd toca com enorme contenção.Mas o elemento mais impressionante é Bon Scott. Sua voz parece completamente diferente. É blues puro.

O álbum termina recuperando a energia. Squealer começa com um riff que parece quase ameaçadoramente simples. A canção vai crescendo gradualmente e possui uma estrutura um pouco mais desenvolvida do que algumas das composições anteriores. A guitarra de Angus é novamente protagonista. O riff principal possui um caráter quase hipnótico, enquanto Malcolm mantém a base extremamente firme. Phil Rudd conduz a bateria com precisão, deixando espaço para que as guitarras possam trabalhar. Bon Scott assume novamente sua persona provocadora. Sua interpretação é cheia de malícia e humor.

 

 

Dirty Deeds Done Dirt Cheap é um dos álbuns mais importantes para compreender o AC/DC antes da explosão internacional. Ainda não existe a escala monumental que apareceria depois. O som é mais cru, a produção é relativamente enxuta e a banda parece estar muito mais próxima de um clube pequeno do que de um estádio. E isso é precisamente uma das suas maiores qualidades. Existe uma sensação permanente de que a banda está tocando para valer. Ainda faltavam alguns anos para a banda se tornar uma das maiores instituições do rock mundial. Mas, ouvindo este álbum, fica evidente que a fórmula já estava praticamente pronta. Mais do que um álbum de hard rock. Um álbum de rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.

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