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Abre o sigilo, meu bem

Abre o sigilo, meu bem

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Lula desafiou Flávio Bolsonaro, o poste, a abrir os sigilos telefônico, telemático e bancário. O petista já se comprometeu a fazer o mesmo, incluindo Little Lula no balaio. Em tempos de redes sociais, o desafio resultou em hashtag raivosa e acabrunhada. Não sei o que isso demonstra em eficácia, mas serve para convencer os já convencidos.

Cá entre nós: melhor seria se o tema virasse marchinha carnavalesca. ‘Abre o sigilo’, assim, entraria no rol de letras politicamente incorretas ostensivamente canceladas nos blocos de foliões — se é que eles ainda existem. Entre elas, ‘A Pipa do Vovô’, de Manoel Ferreira e Ruth Amaral, que é autoexplicativa; ‘Cabeleira do Zezé’, de João Roberto Kelly e Roberto Faissal; ‘Maria Sapatão’, também de Kelly; ‘O Teu Cabelo Não Nega’, de Lamartine Babo; e ‘Mamãe Eu Quero’, cujos versos ‘eu quero mamar’ e ‘me dá a chupeta’ trazem insinuações libidinosas que ficam na margem de erro daquilo que é admissível e do que não é. Tempos sombrios.

As marchinhas reinaram por longo tempo, dos anos 20 aos anos 60 do século passado, até serem substituídas por sambas-enredo, épicos na chatice. Pior para o Carnaval. Mais do que uma crítica de costumes, as composições (calcadas no bate-bumbo militar) eram verdadeiras crônicas urbanas e políticas. E não poupavam ninguém, muito menos o incumbente.

‘Retrato do Velho’, marchinha de 1951 composta por Haroldo Lobo e Marino Pinto, cai como uma luva, aliás, na tentativa de empurrar Lula goela abaixo do eleitor: ‘Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / O sorriso do velhinho / Faz a gente trabalhar’. Composta para festejar a volta de Vargas, o outro ‘pai dos pobres’, a música quase foi censurada pelo próprio presidente, que não gostou nada de ser chamado de ‘velhinho’. Vargas tinha 69 anos à época. Lula completará 81 anos na próxima terça-feira — dois dias após o segundo turno.

Porém, as melhores marchinhas eram aquelas com trocadilhos que mal disfarçavam as intenções. Acredite, lançada em 1919, ‘Na Minha Casa Não Se Racha Lenha’ tinha os seguintes versos: ‘Na minha casa não se racha lenha / Na minha racha, na minha racha / Na minha casa não há falta d’água / Na minha abunda, na minha abunda / Na minha casa não se pica fumo / Na minha pica, na minha pica’. E por aí vai. As Senhoras de Santana, o Foro de São Paulo e outras alas puritanas ficariam horrorizadas. Ainda que um século depois.

Escanteadas do cenário momesco, as marchinhas de letras cômicas foram dar (ooops) no forró malicioso de duplo sentido que impera até hoje nas melhores casas do ramo e nos bailões eletrônicos. É o caso de trechos como ‘ela deu o rádio’ e ‘tá de olho na butique dela’, de Genival Lacerda; ‘talco no salão’ e ‘seu delegado prenda o Tadeu… ele pegou minha irmã e… eu’, de Clemilda; ‘Chupa que é de uva’, hino do duplo sentido nos anos 2000; e ‘Que cookie que você tem?’, do Língua de Trapo.

Nos bastidores do debate presidencial, o ministro-marqueteiro Sidônio Palmeira, descompensado, reclamou dos gestos de Flávio às costas de Lula. Pois pode se compensar encomendando uma marchinha com o mote ‘Abre o sigilo, meu bem’. Lula pode sair derrotado nas urnas, mas a marchinha será eternizada.

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