O segundo álbum da Legião Urbana, simplesmente batizado de Dois, foi lançado em 20 de julho de 1986. Representa um dos momentos mais importantes da história do rock brasileiro. A agressividade deu lugar a uma escrita mais sofisticada, introspectiva e literária, consolidando Renato Russo como um dos grandes compositores da música brasileira. O disco reúne doze faixas e combina influências do folk rock, pós-punk, pop e rock alternativo. Mostra o amadurecimento coletivo da banda.

Daniel Na Cova Dos Leões apresenta imediatamente uma banda diferente daquela do álbum de estreia. A guitarra de Dado Villa-Lobos constrói um riff baseado em acordes abertos e arpejos que lembram o rock britânico, enquanto Marcelo Bonfá utiliza uma bateria pulsante, mas extremamente controlada. Renato Rocha desenvolve uma linha de baixo independente, que frequentemente conduz a harmonia em vez de apenas acompanhá-la. Renato Russo interpreta a letra com intensidade crescente. A imagem bíblica de Daniel funciona como metáfora para o indivíduo cercado por pressões políticas, sociais e existenciais.
Quase Sem Querer tem base harmônica construída sobre violões e guitarras limpas, enquanto o baixo cria pequenas variações melódicas extremamente elegantes. Renato Russo canta de maneira íntima, sem dramatização. A letra trata das ambiguidades dos relacionamentos afetivos, mostrando como sentimentos podem sobreviver mesmo após rupturas. O solo de guitarra é curto, lírico e absolutamente integrado à melodia da composição.
Acrilic On Canvas é a faixa mais sofisticada do álbum em termos harmônicos. A estrutura foge do formato tradicional de verso e refrão, desenvolvendo-se quase como uma narrativa musical contínua. Dado Villa-Lobos utiliza guitarras limpas com discretos efeitos.
Eduardo E Mônica é a narrativa mais conhecida escrita por Renato Russo. A canção impressiona justamente pela simplicidade. A harmonia permanece relativamente estável, permitindo que a história ocupe o centro da atenção. O baixo desempenha papel decisivo ao manter o movimento constante da canção, enquanto a guitarra adiciona pequenas frases melódicas entre os versos. Renato canta como um contador de histórias. Não interpreta personagens; apenas narra os acontecimentos com naturalidade, permitindo que o ouvinte complete emocionalmente cada cena.
Central Do Brasil é a única faixa instrumental do álbum. Apesar da curta duração, exerce papel fundamental na organização do álbum. Sua melodia é suave, conduzida por guitarras limpas e teclados discretos.
Tempo Perdido é uma das maiores composições da história do rock brasileiro. A introdução é construída sobre guitarras cristalinas e uma progressão harmônica ascendente. O baixo de Renato Rocha é extraordinário. Em vez de repetir a tônica dos acordes, desenha uma linha melódica própria que amplia continuamente a emoção da música. Marcelo Bonfá utiliza a bateria com enorme inteligência, permitindo que a intensidade cresça gradualmente até o refrão. Renato Russo entrega uma interpretação madura, equilibrando melancolia e esperança. A reflexão sobre o tempo, a juventude e a urgência de viver evita qualquer sentimentalismo excessivo graças à força da melodia e ao refinamento do arranjo.
Metrópole retorna ao rock mais direto. A guitarra utiliza acordes secos e ataques rápidos, enquanto a bateria acelera o andamento. O baixo permanece extremamente móvel. A interpretação vocal é mais agressiva, lembrando a energia do primeiro álbum, mas com arranjo muito mais sofisticado.
Em Plantas Embaixo Do Aquário a construção rítmica é fragmentada, alternando pequenas mudanças de dinâmica ao longo da canção. A guitarra utiliza efeitos discretos. A letra trabalha imagens simbólicas e fragmentadas.
Música Urbana 2 é uma releitura muito mais madura das inquietações urbanas presentes nos primeiros trabalhos da banda. O riff principal é simples, mas extremamente eficiente. A bateria mantém andamento firme, enquanto o baixo reforça a sensação de movimento constante. Há maior distanciamento crítico e menos revolta imediata.
Andrea Doria á a composição mais complexa do álbum. Inspirada no famoso transatlântico italiano que afundou em 1956, a canção utiliza o naufrágio como metáfora para relações humanas, insegurança e perda de rumo. A guitarra constrói uma das harmonias mais sofisticadas do álbum, alternando acordes maiores e menores de maneira extremamente elegante. O baixo desenvolve uma linha que dialoga com a voz. Renato Russo realiza uma de suas interpretações mais emocionantes, explorando toda a extensão dinâmica de sua voz. É uma obra de enorme riqueza poética e musical.
Fábrica é o momento mais explicitamente político do álbum. A introdução apresenta uma guitarra pesada e repetitiva, enquanto a bateria assume caráter quase marcial. O baixo reforça essa atmosfera de tensão. A letra denuncia a exploração do trabalhador sem recorrer ao discurso panfletário. Renato Russo prefere construir imagens concretas do cotidiano industrial, tornando a crítica ainda mais poderosa.
O encerramento, com Índios é simplesmente extraordinário. A introdução de violão estabelece imediatamente um clima surreal. Aos poucos entram baixo, guitarra e bateria, sempre com extrema delicadeza. A letra utiliza a figura dos povos indígenas como símbolo de perda, inocência e ruptura histórica, mas também amplia essa reflexão para relações humanas, memória e identidade. Renato Russo entrega talvez sua interpretação vocal mais emocionante até então. Cada verso parece cuidadosamente construído para crescer em intensidade sem jamais recorrer ao exagero. O arranjo demonstra enorme maturidade. Nenhum instrumento procura sobressair; todos trabalham em função da atmosfera criada pela composição.
Dois é muito mais do que o álbum que consolidou a Legião Urbana como a principal banda do rock brasileiro dos anos 1980. É uma obra em que poesia, música e interpretação alcançam um raro equilíbrio. O amadurecimento de Renato Russo como compositor é evidente em cada faixa. Suas letras abandonam o tom predominantemente confessional do primeiro álbum para dialogar com literatura, filosofia, política e memória afetiva. Ao mesmo tempo, a banda evolui musicalmente de forma impressionante. É um dos poucos álbuns do rock brasileiro em que praticamente todas as faixas atingem um nível artístico elevado. Um álbum de rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.
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