
Estou sozinha. Frondosas araucárias e flores outonais ladeiam a avenida, que parece ser só minha. O céu explode azul em todas as direções.
Meus pés ligeiros pisam as folhas secas com uma ponta de pena. Uma ponta. Sempre gostei de ouvir o estalar das folhas se partindo, como se isso fosse uma pequena provocação ou vingança.
Sigo olhando as casinhas, imaginando quem mora ali, o que fazem, se se amam ou se desamam, se há pão assando no forno, ou se o pai já vai chegar…
Curitiba é uma cidade moderna, mas nos bairros resistem muitas casas de madeira e construções que guardam estilos e arquitetura de outras épocas. Também há palacetes, onde alguns vivem no paraíso. Ou não.
Alguns jardins ainda mantêm esculturas brancas ou chafarizes, que certamente tinham a função de ostentar luxo ou agradar filhos ou netos. As grades de ferro exibem arabescos retorcidos de todas as formas. Cada detalhe que me afasta do presente é um prazer, como as bordas de muros com cacos de azulejos coloridos.
Sou apaixonada pelas luminárias de ferro e vidro. Passei por várias e me lembrei delas, descritas nos livros e filmes que fizeram parte de mim. Portas e janelas em estilo colonial, varandas – floridas ou abandonadas, tudo parece de outro tempo.
Escadas de pedra, como a da minha avó, aparecem atrás de portões de ferro. Pisos de tijolinho, lustrados, com cheiro de cera eram sinônimo de capricho. De longe, a fé: capelinhas com imagens de santas em algum canto, em silêncio.
Bancos de madeira, brinquedos espalhados pelo jardim, varal com roupas exalando cheirinho de amaciante. Sinto a vida acontecendo.
Sigo mais algumas quadras, até virar à direita, na minha rua. Avisto na esquina um muro em carne viva, descascado, destoando na paisagem. Há quem vá além na falta. E a dor fica exposta.
É, talvez eu quisesse ter morado em muitas casas… em uma que tivesse um pé de camélias e uma casinha de boneca.
Se eu caminhasse pelo bairro todo, continuaria curiosa. Andaria com as mãos soltas, como se fosse livre. E, nesse instante, sou. Sou do mundo. Sou da rua. Sou da minha rua.
Não da rua onde brinquei de “gato mia” com os vizinhos. Nem daquela em que joguei vôlei com meu pai, ou andei de bicicleta. Sou da rua que escolhi para minhas filhas crescerem. Nessa casa houve riso. Duas meninas, vestidas iguais, tons diferentes de rosa nos quartos, nas cortinas. E lá fora, a casinha de boneca.
Hoje, em breve passeio, cada detalhe me deslumbra, como se eu tivesse de alguma forma vivido em muitos lugares. Ou como se conversasse com o passado. Eu não pedi para ser tão nostálgica!
Mas vejo pedaços de lembranças por toda parte. De concreto, de afeto.
Os registros estão nas retinas de quem passa.
Leia outras colunas da Maria do Rocio Vaz aqui

