Acabo de lançar uma exposição de minhas obras e um livro infantil no Memorial de Curitiba, belíssimo espaço da Fundação Cultural de Curitiba. A mostra, denominada “Uma aventura da Natureza”, pode ser descrita como que formada por três grupos de obras que se sucedem e se emaranham: as litografias criadas e executadas há mais de quarenta anos nos espaços da Casa da Gravura do Solar do Barão, nos anos 80, que falam da minha visão urbana sobre a pintura corporal dos povos indígenas do Xingu. A seguir as seis esculturas em aço da coleção Muirapiranga que, além dos espaços do “Parque das esculturas ciências para a vida” do Hospital Pequeno Príncipe, nunca foram mostradas em Curitiba após seu lançamento em São Paulo na FUNARTE, em 2019. A terceira parte é composta das ilustrações, em técnica mista, que tem seu início nas últimas três litografias e seguem falando de uma aventura dos personagens da mitologia indígena dos povos do Xingu: os irmãos Sol e Lua. Esses, que ao sentir falta da água, seguem pela natureza em sua busca. Sol, Lua, Árvores, Pássaros e Peixes, assim como as Nuvens, são elementos principais também das esculturas. Há também, nas páginas do livro “…Uma Vez o Sol e a Lua…”, que se encontra disponível na exposição e narra a aventura dos astros, os grafismos, tão sutilmente retirados das litogravuras pelo designer, criando um espaço onde a criança tem tempo para imaginar seus próprios personagens, antes de se deparar com o universo proposto pela artista no exemplar.

Do jornalista e professor da UFPR, José Carlos Fernandes, em sua poética apresentação da mostra, com ricas metáforas sobre meu processo de criação, exponho aqui um trechinho:
“Há 40 anos, a artista plástica Elizabeth Titton começou a plantar uma floresta – e graças a essa floresta, Titton nunca está sozinha”. O “Primeiro Dia da Criação”, o seu canto do Gênesis, nasceu de uma indagação própria dos artistas. Ela precisava fazer arte a seu tempo e modo. Encontrar uma dicção. Ter uma linguagem para chamar de sua. Um idioma feito de traços, formas e cores com o qual conseguisse levar as pessoas a lugares incomuns; ou a lugares comuns por meio de galáxias. Simples e complexo assim. Não fez disso um moinho. Preferiu a lógica das frases diretas e disse a si mesma que era brasileira; que vivia no Brasil; que quem melhor podia ensiná-la a falar a língua que buscava eram os indígenas. E para perto deles partiu, por meio de livros, fotos, relatos, pronta para viver o segundo, terceiro e tantos outros “Dias da Criação”. E viu que era bom.”

Quem quiser conhecer mais desse rico e sensível texto de apresentação do José Carlos, poderá encontrá-lo nas paredes do Memorial, junto a tantas outras belas imagens criadas por seu rico repertório, junto a outros vários pedaços da intimidade do fazer artístico da escultora, que ele, com maestria, soube decifrar e expor. Sim expor! porque o artista expõe a obra e a obra expõe o artista, dizem ser palavras de Shakespeare.

A obra nem sempre é sobre o que se fala, e sim, como se fala. Essa “dicção” a que se refere tão acertadamente o jornalista e observador atento, Zeca Fernandes, é a arte revelada aos poucos, à medida que vai nascendo, sem muito saber como e por que caminhos seguir, como um bebê que deixa o mundo conhecido do corpo da mãe, o aconchego da intimidade do útero que o alimentou e sai para o mundo desconhecido sujeito a tantas interferências.
Criar é o fazer solitário que brota da alma, como de um casulo escuro e apertado que, segundo dizem, permite às borboletas, pelo esforço necessário para sair de seu interior, desenvolverem força para voar — e, a nós, seus espectadores, parecerem tão leves e lindas.

Então, quando convido vocês a vivenciarem a mostra “Uma aventura da Natureza”, estou me expondo ao olhar e à troca de vivências que cada um desses olhares – os seus – carrega. Expondo-me ao encontro ou ao estranhamento que nascerá dessa oportunidade. Mas, sobretudo, a uma intimidade onde observador e observado se encontram e saem, certamente, mais enriquecidos. Um encontro tão gratificante para o criador, que acontece quando alguém, depois de observar longamente e de silenciar, se manifesta dizendo simplesmente: “Essa obra é tão você!”
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