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KARLA KUSTER CABECA hojesc

A IA está castrando nosso cérebro?

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Eu não tenho medo da IA roubar empregos. Tenho pavor dela roubar nossa capacidade de pensar sozinhos.

Quem tem mais de 40 sabe do que estou falando. Cresci num mundo onde, se a luz acabava, acendia-se vela e continuava escrevendo à mão. Se precisava de informação, abria a “Barsa”, ligava pra amiga ou simplesmente inventava – e a invenção era boa porque era nossa. Errar fazia parte. Rasgar folha, recomeçar, suar. Era assim que a gente construía estilo, voz, alma.

Hoje vejo adolescentes que escrevem “escreva uma redação nota 1000 no meu estilo” e recebem em sete segundos um texto que até eu acreditaria que é deles. Perfeito na gramática, perfeito na estrutura, perfeito no vazio. Porque não tem luta, não tem erro, não tem alma.

As provas já estão aí, frias e cruéis. Estudo da Stanford mostrou que alunos que usam IA generativa perdem até 31% da habilidade de organizar argumentos sozinhos em um único semestre. Pesquisa da Nature Human Behaviour mediu atividade cerebral: quem delega tarefas cognitivas rotineiras ativa menos o córtex pré-frontal – a região do raciocínio abstrato e da memória de trabalho. Em português claro: quanto mais você entrega pro robô, mais seu cérebro desiste de malhar.

O resultado? Uma geração que domina prompts, mas entra em pane quando precisa criar do zero. Profissionais que sabem pedir “faça um plano inovador”, mas não inovam porque nunca treinaram a musculatura da originalidade. Namoros onde o “eu te amo” é escrito por bot. Trabalhos que enganam professores, mas não enganam a vida.

E quando a IA cair? Quando o ChatGPT, o Claude e o Gemini evaporarem num blecaute global ou num ataque hacker? Quando surgir um problema que nenhum “dataset” do mundo previu? Vão ficar olhando pro teto como quem perdeu a senha do próprio pensamento.

Não sou inimiga da tecnologia – uso IA todo dia pra pesquisar, organizar ideias, corrigir texto. Mas uso como muleta, nunca como perna. A diferença entre minha geração e a deles é simples: se amanhã o mundo inteiro de IA apagar, eu pego caneta e papel e continuo. Muitos deles simplesmente param.

O perigo não é a ferramenta. É a preguiça que ela embrulha pra presente. Preguiça mental é o veneno mais lento que existe: não mata de uma vez, atrofia devagarinho até você perceber que não levanta mais sozinho.

Missão quase impossível: ensinar as novas gerações a usar IA como trampolim, nunca como rede. Se o cérebro virar músculo atrofiado, não adianta chorar, a máquina não vai ter pena.

Leia outras colunas da Karla Küster aqui.