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JAINE VERGOPOLEM

A fotografia como lugar da memória

Faz algum tempo que não escrevo esta coluna. Não foi por falta de assunto. Talvez tenha sido justamente o contrário. Havia coisas demais acontecendo dentro de mim, e algumas delas eram grandes demais para caber em palavras.

Em um infortúnio chamado câncer, perdi meu pai. E, quando alguém que amamos se vai em estado físico, o mundo parece adquirir uma espécie de silêncio diferente. Algumas coisas continuam exatamente no mesmo lugar: a casa, o sofá, o caminho, os objetos. Mas nós sabemos que alguma coisa mudou para sempre.

Talvez por isso meu retorno a esta coluna não possa ser diferente.

Eu precisava escrever sobre fotografia. Mas, desta vez, não sobre técnica, luz, equipamento, composição ou pensamento. Queria escrever sobre aquilo que existe antes e depois do clique: a memória. Porque há fotografias que não são apenas fotografias, elas são lugares onde alguém continua existindo. E eu tenho pensado muito sobre isso desde que meu pai partiu.

Às vezes, abro uma fotografia e encontro um homem que já não posso abraçar. Está ali, parado no tempo, com a mesma expressão, o mesmo jeito de olhar, talvez a mesma roupa que eu nem lembrava mais. E, por alguns segundos, ele volta. Não de verdade — porque a fotografia não pode devolver ninguém. Mas devolve alguma coisa. Devolve o instante, devolve o rosto, devolve um pedaço da história. E talvez seja essa uma das maiores forças da fotografia: ela não vence a morte, mas enfrenta o esquecimento.

Susan Sontag, ao refletir sobre a fotografia, escreveu sobre nossa relação quase insaciável com as imagens e sobre como fotografar é também uma maneira de guardar o mundo. Para ela, a fotografia altera nossa maneira de olhar e cria uma espécie de inventário visual daquilo que vivemos.

Hoje, depois de perder meu pai, compreendo essa ideia de uma maneira muito mais íntima. Fotografar alguém que amamos é também reconhecer que aquele momento é passageiro. Talvez não pensemos nisso quando apertamos o botão, afinal, estamos apenas registrando um aniversário, um almoço, uma viagem, um domingo qualquer. Fotografamos nossos pais sentados à mesa. Fotografamos nossos filhos brincando. Fotografamos quem amamos sorrindo, trabalhando, tomando um café, caminhando. Fotografamos porque parece que haverá sempre um amanhã. Mas um dia descobrimos que algumas fotografias se tornam o próprio amanhã.

Roland Barthes, em A Câmara Clara, fala sobre aquilo que chama de punctum: aquele detalhe da fotografia que nos atravessa, que nos toca de maneira pessoal e inesperada. Não é necessariamente aquilo que o fotógrafo quis destacar. É aquilo que, para nós, faz a imagem doer — ou permanecer.

Tenho minhas próprias fotografias assim. Uma mão. Um olhar. Um sorriso. Uma postura. Uma pequena expressão que talvez ninguém mais perceba. Mas eu percebo. Porque conheço a pessoa que está naquela fotografia. E é aí que compreendo que uma imagem nunca é apenas o que aparece dentro de seu enquadramento.

Uma fotografia carrega aquilo que não está visível. Carrega o antes. O depois. A conversa que aconteceu e a pessoa que estava atrás da câmera. O cheiro daquele lugar, a música que tocava, a roupa que alguém usava, a história que somente algumas pessoas conhecem, e é por isso que uma fotografia de família pode parecer banal para quem olha de fora e ser absolutamente preciosa para quem viveu aquela história.

Existe uma fotografia do meu pai que, para outra pessoa, talvez seja apenas uma fotografia. Para mim, é ele. É uma época da minha vida, uma lembrança de um homem que existiu, que caminhou comigo, que fez parte da minha história. E agora essa fotografia também cumpre outra função: ela me permite apresentar meu pai a quem talvez nunca tenha tido a oportunidade de conhecê-lo. Isso talvez seja uma das coisas mais bonitas da fotografia, pois ela permite que alguém que já não está entre nós continue sendo apresentado: “Este era meu pai”, “esta era a minha avó”… E, de repente, aquela pessoa que pertenceu a uma determinada casa, a uma determinada família, a um determinado tempo, passa a existir também na memória de quem nunca a conheceu.

A fotografia cria uma espécie de ponte entre gerações.

Walter Benjamin, ao escrever sobre a história da fotografia, pensou sobre a singularidade das imagens e sobre aquilo que chamou de “aura”. Sua reflexão ajuda a compreender que uma fotografia não é simplesmente uma reprodução mecânica da realidade: ela se relaciona com a presença, com o tempo e com aquilo que se perdeu. Talvez seja por isso que, depois de uma perda, fotografias antigas adquiram outro peso. Antes, eram apenas fotografias antigas e depois, tornam-se documentos de uma vida. E, em algum sentido, passam a contar uma história que nós mesmos não conseguimos contar inteira.

Porque a memória falha e nós esquecemos vozes. Esquecemos pequenos gestos e exatamente como era determinado sorriso, esquecemos o tom de uma conversa, mas a fotografia permanece ali, silenciosa, esperando que voltemos a ela. E quando voltamos, ela nos ajuda a lembrar.

Por isso, hoje, eu tenho vontade de dizer uma coisa que talvez pareça simples: fotografem as pessoas que vocês amam. Fotografem seus pais, seus avós, seus filhos, seus amigos. Fotografem o cotidiano. Não apenas as grandes ocasiões. Fotografem a mesa depois do almoço. O café. As mãos trabalhando. O rosto distraído. O abraço. O sorriso que acontece sem perceber. Fotografem!

Porque nós nunca sabemos qual imagem, entre tantas, será um dia a fotografia que alguém vai segurar nas mãos e dizer: “Eu sinto saudade dessa pessoa!” E não é preciso esperar uma perda para compreender o valor de uma fotografia. Talvez o verdadeiro sentido de fotografar seja justamente esse: perceber que o instante é único enquanto ainda estamos dentro dele.

Eu passei anos fotografando pessoas, lugares, histórias. Mas foi a ausência que me ensinou uma das coisas mais profundas sobre a fotografia. Uma fotografia não guarda uma pessoa. Ela guarda uma passagem dela pelo mundo e, às vezes, isso é suficiente para que ela continue presente. Meu pai não está mais aqui para olhar uma fotografia comigo, mas eu posso olhar para uma fotografia dele. Posso lembrar. Posso contar quem ele foi. Posso mostrar seu rosto. Posso falar de suas histórias. Posso dizer às pessoas que vierem depois de mim: “este era ele”. E talvez seja esse o pequeno milagre da fotografia.

Ela não impede que as pessoas partam, não congela o tempo e não devolve quem morreu. Mas nos dá uma pequena janela para aquilo que foi. Uma janela para um instante que nunca mais acontecerá daquela mesma maneira. Uma imagem onde o tempo parece ter parado. E, quando a saudade aperta, nós podemos voltar para lá.

Talvez por isso meu retorno à escrita precise começar justamente por ele. Meu pai! Porque algumas histórias não terminam quando as pessoas partem. Elas apenas mudam de lugar. Algumas passam a morar nas fotografias, outras, nas lembranças ou nas histórias que contamos, e outras permanecem silenciosamente dentro de nós.

Esta coluna é sobre fotografia. Mas hoje, antes de falar sobre qualquer câmera, lente ou técnica, eu queria falar sobre aquilo que nenhuma câmera consegue explicar: o amor que existe por trás de uma imagem.

Porque, no fim, talvez fotografar seja também uma maneira de dizer: “Eu quero lembrar de você!”, “eu quero que você permaneça!”, “eu quero que, um dia, alguém olhe para esta fotografia e saiba que você esteve aqui!”. E meu pai esteve. Está nas minhas fotografias, memórias, histórias que ainda vou contar e talvez seja assim que algumas pessoas continuam conosco: não porque conseguimos impedir sua partida, mas porque encontramos maneiras de nunca deixar que sejam esquecidas.

Fotografem.

(Imagem: Bernardo Vergopolem em seu erval/Jaine Vergopolem)

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