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marcus gomes

A Coreia do Sul não é aqui

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Pentacampeão na Copa do Mundo da Ásia, em 2002, onde ao que parece a trombeta do pébol canarinho soprou pela última vez, o Brasil viu mais do que o esporte bretão.

Jornalistas que estiveram in loco na Coreia do Sul, país que sediou a campanha juntamente com o Japão, tiveram a oportunidade também de cobrir as eleições regionais que ocorreram no mesmo ano.

Em Ulsan, sede da seleção na primeira fase do torneio, a campanha à prefeitura deixou a imprensa boquiaberta, tal a simplicidade. Em resumo, o candidato e sua entourage, cinco ou seis gatos pingados, desfilavam na plataforma de um carro de som, balançando os braços no ritmo de ‘Baile dos Passarinhos’ – aquela musiquinha enjoada que, se não me engano, Gugu Liberato popularizou. Era de um constrangimento ímpar, mas ao menos eles não berravam em caixas de som, não jogavam papel picado e não distribuíam a praga dos santinhos.

Alfabeto fonético

A faixa de campanha estendia-se no carro e era pintada a mão. O alfabeto coreano, apesar de esquisito, não é composto de ideogramas, mas de fonemas, como no ocidente. É chamado de Hangul. Tem 26 letras e foi criado, em 1443, pelo rei Sejong, o Grande, para dar um fim às dificuldades enfrentadas no aprendizado do complexo sistema de escrita chinês (Hanja), utilizado até então.

Nas esquinas mais movimentadas, povoada de cinco ou seis gatos pingados, o candidato discursava com um megafone, enquanto os cabos eleitoras se enfileiravam na calçada e, de novo, dançavam ao som da música do Gugu. Mais constrangedor ainda. Era simplório, quase sem custos para o partido, e continua assim.

No Brasil, a campanha municipal de 2024 custou ao contribuinte R$ 4,9 bilhões. Neste ano, as eleições presidenciais consumirão R$ 6,4 bilhões. Um valor que seria espantoso a qualquer cidadão, exceto ao Judiciário que, só em penduricalhos, pagou R$ 7,4 bilhões a magistrados e promotores no intervalo de três anos.

Hyundai e Samsung

Na Coreia do Sul não há horário eleitoral obrigatório no rádio e na TV. A propaganda impressa e eletrônica é paga através de doações de pessoas físicas aos partidos, mas representam muito pouco. O país concentra 50 milhões de habitantes em extensão territorial equivalente ao estado de Pernambuco. Vivendo sob uma ditadura que durou quatro décadas (até 1980), a industrialização da Coreia foi tardia. Ainda assim o país emergiu, já no final do século passado, como um tigre asiático, investindo principalmente em educação e tecnologia. Não à toa, os celulares e televisores da Samsung estão espalhados pelo mundo. Não à toa, os carros elétricos da Hyundai lideram o mercado global.

Dilma Rousseff sofreu o impeachment em agosto de 2016. Oito meses depois, a presidente coreana Park Geun-hye foi afastada do cargo pelo parlamento e condenada a 24 anos prisão, acusada de corrupção. Dilma, como se sabe, perdeu o mandato, mas não os direitos políticos, em clara violação constitucional. Assim se manteve apta para disputar o Senado por Minas Gerais e depois assumir o cargo de presidente do Brics, aquele arremedo de banco dos países emergentes.

Especialistas em direito eleitoral com algum pudor sustentam que despejar dinheiro dos cofres públicos em campanhas de partidos, entidades de direito privado com CNPJ, não têm qualquer racionalidade. Aliás, não se explica essa soma fabulosa quando vem de onde vem. Os eufóricos dizem que as eleições são a festa da democracia. Está mais para farra.

Plutocratas, uni-vos!

Claro, não seria assim se o STF não metesse a colher onde não é chamado. Em 2017, a corte proibiu as doações de pessoas jurídicas para evitar a “captura do político pelo poder econômico”.

Ou seja, enxergando “plutocracia” no que é (ou deveria ser) democracia, os onze ministros julgaram procedente ‘poupar os corrompidos da ação do corruptor, estabelecendo a igualdade de direitos entre ricos e pobres’. Pausa para risadas.

Se é democracia e Estado de Direito o que realmente se deseja, caberia ao STF argumentar que não é atribuição do tesouro público sustentar pançudo.

Mas o Brasil não é, não foi e jamais será a Coreia do Sul. Enquanto o país asiático avança, inclusive nos seus preceitos democráticos, o Brasil chafurda. Não é só a corrupção que aportou no país com as caravelas. A cara de pau também.

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