A primeira vez que vi Pelé de perto foi como repórter, em um Coritiba x Santos pelo campeonato nacional. À época o rei tinha um mantra aos jornalistas: “Não dou palpite para a loteria esportiva”. A chamada loteca era a atração da época e as personalidades do futebol eram chamadas para palpitar.
Muitas décadas depois, em tempos de lava-jato, Pelé foi à sede da Associação dos Juízes Federais do Paraná. Eu assessorava a Apajufe e fiquei cozinhando os jornalistas, ávidos por uma fotografia com as duas atrações da noite: Pelé e Sérgio Moro.
Quando a foto foi liberada, a debandada foi geral. Pelé ficou sentado, com o que aproveitei para puxar conversa. Ele desculpou-se por não levantar da cadeira, estava com problema no quadril. Já havia feito duas cirurgias em Nova Iorque, mal-sucedidas.
Tive a petulância de dizer a ele que o Pelé das cirurgias de quadril morava em Curitiba e se chamava Ademir Schuroff. Contei que havia me operado com absoluto sucesso.
Tempos depois, eu era o responsável pela comunicação da Ordem dos Advogados, quando Pelé voltou a Curitiba para compromissos no Hospital Pequeno Príncipe. A OAB acertou uma conversa com ele, para um auditório lotado. O rei desceu do carro capengando e entrou pela porta de trás, a uns dez passos do palco. Para chegar lá era preciso subir cinco degraus.
Pelé olhou para trás e viu as duas jornalistas que eu havia escalado cobrir o evento. Perguntou: “Vocês já pegaram na bunda de um negão?”
Elas negaram com toda convicção.
– Então vão pegar agora. Me ajudem a subir.
Assim, amparado pela bunda, subiu ao palco sob uma chuva de aplausos. Não seria por aquele problema de locomoção que perderia a majestade.
Pelé, o eterno, para sempre o Rei do Futebol.
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