Pular para o conteúdo
A arte de viver

A arte de viver

Acabo de voltar de uma aventura pela vida. Vida dos indígenas Waurá, na terra Batovi, na aldeia Ulupuwene no Parque do Xingu, no cerrado de Mato Grosso. Uma iniciativa apaixonada do fotógrafo e indigenista Renato Soares apoiado por sua esposa, jornalista e fotógrafa Luciola Zvarick (pessoas admiráveis!). O convite partiu de minha filha Adriana que em um contato casual com a fotógrafa Vilma Slomp, partiu em busca de realizar essa aventura esplêndida! Segue aqui um olhar, talvez míope e, certamente muito pessoal, de uma estrangeira em seu próprio país.

Não sei nem por onde começar, difícil escolha do viés para trazer a vocês um pouquinho do que vivemos lá. Ainda estou em estado de graça, apesar de ter voltado há quase um mês e ter caído de cabeça na correria do trabalho e da vida cotidiana. É muito forte sentir na alma que ali, naquele lugar, com aquelas pessoas, sente-se que dá para ter esperança na humanidade.

"Céu estrelado na Aldeia Ulupuwen dos -  Waurá" -  foto de @manu.imaginary - Manu Leitão - Xingu - 2026.
“Céu estrelado na Aldeia Ulupuwen dos – Waurá” – foto de @manu.imaginary – Manu Leitão – Xingu – 2026.

 

Passamos uma semana morando na oca, com a família do indígena Tupanumaka Waurá. Homem que viveu vários anos em Brasília com os brancos, fala muito bem o português, mas sobretudo um homem generoso, alegre, magnífico contador de histórias do seu povo, de sua mitologia, criador de obras de arte em madeira, esculturas de animais que povoam as terras e a rica imaginação indígena que há tantos anos vem me inspirando.

Procurar uma palavra para descrever o modo de vida na oca, bem como em toda a aldeia, é fácil: harmonia. Harmonia nos gestos, no suave som da fala, na música e ritmos que povoaram nossos dias e noites. Assim como o céu estrelado – de beleza estonteante –, o som dos guizos de semente de pequi, ou mesmo os de metal, que se ouvia na constante dança que levava os flautistas e suas acompanhantes de casa em casa, durante quase todo o dia, no calor tórrido de quase quarenta graus, preparava a aldeia para a festa do Kuarup em homenagem aos mortos do ano anterior.

"Arte à flor da pele" guerreiro Waurá - foto Renato Soares - Xingu- 2026.
“Arte à flor da pele” guerreiro Waurá – foto Renato Soares – Xingu- 2026.

 

A preparação da festa era diária. Os corpos fortes, cor de bronze, pintados com a ajuda dos amigos e familiares – que se divertiam ao fazê-lo, escolhendo entre os desenhos tradicionais que representavam animais –, iam a cada cerimônia; foram muitas, nos encantando cada vez mais. A alimentação das famílias e preparação para receber as etnias que estariam presentes no dia da festa do Kuarup eram construídas no fazer orgânico de cada dia. As mulheres indo para a roça colher a mandioca e trazendo-as para produzir o biju e outras refeições. Os homens, seguindo para a pesca no rio, era uma experiência a parte. Uns dez barcos de alumínio, com vários homens em cada um, levando as redes e ferramentas especialmente produzidas para retirar os peixes das águas, seguiam, após uma cerimónia em que pediam autorização ao rio para pescar. Emocionante! Dormiram no rio, onde foram pegar os peixes. Na volta, com uma grande quantidade e variedade – não sem algumas feridas, como mordidas de piranha e choque de peixe elétrico, além de picada de arraia –, as mulheres e familiares os esperavam na beira do rio, com carrinhos de mão para ajudar a levar o fruto do trabalho. Não posso deixar de comentar que tudo fluía naturalmente, sem ninguém chefiar, ninguém gritar, ou ninguém mandar. Só cantos e sons de alegria. Pura harmonia! De nossa parte, admiração e muita emoção!

 

"As meninas e o rio"- Aldeia Ulupuwene - Adriana Titton e as meninas Waurá- foto Miljan Kontic - Xingu-2026.
“As meninas e o rio”- Aldeia Ulupuwene – Adriana Titton e as meninas Waurá- foto Miljan Kontic – Xingu-2026.

 

A mesma forte emoção que presenciamos na festa do Kuarup, quando, os troncos cortados em uma outra cerimônia, e trazidos pelos homens para serem decorados com desenhos, colares, cocares e outros elementos significativos da cultura, representando os espíritos dos mortos homenageados, foram fincados na parte central da aldeia e protegidos por uma cobertura, construída ali mesmo, na hora, sombreando o forte sol e as famílias que choraram seus mortos. Entre cantos e lamentos, na companhia dos seus, os familiares foram banhados e, ao final, partiram apoiados e confortados de volta às ocas, onde, depois de descansar, passariam a abandonar a tristeza. Seus mortos não teriam mais, a partir de então, seus nomes mencionados; apenas se falaria deles nomeando-os como o pai, a sogra ou o filho, sem usar seus nomes próprios.

"Turista em sua terra"-Alderia Ulupuwene - foto Adriana Titton- Xingu-2026.
“Turista em sua terra”-Alderia Ulupuwene – foto Adriana Titton- Xingu-2026.

 

Para encerrar aqui esse breve relato, não poderia deixar de mencionar o que, de tudo, mais me impressionou: as crianças. De idades variando de bebês a pré-adolescentes, era uma alegria só. Todos nus, em sua timidez, não causada pela nudez – sua forma normal de ser –, mas pela curiosidade. Tinham os olhinhos brilhantes e interessados naquilo que fazíamos, quando estávamos perto. Nos banhos de rio era o momento máximo onde podíamos vê-los em toda a sua alegria e harmonia. Não havia pais presentes, não havia adultos cuidando, os maiores brincavam com os menores, praticavam a luta na beirada do rio antes de pular nas águas e nadar como peixinhos. Como aprenderam a nadar? Não se sabe, nasceram sabendo, como parte integrante da natureza onde vivem; e ainda tinham tempo para cuidar da moça branca, chamada Adriana, que, maravilhada, brincava com elas, e que por não ser tão fluente nos espaços aquáticos que eles tão bem conheciam, divertiam-se, achando graça de seu mal jeito, sempre cuidando e mostrando o melhor lugar para se pisar.

Almas gentis dentro de corpos fortes formam um povo com o qual aprendemos muito. Recebemos muito e, como sempre, demos pouco. Desejo, do fundo do meu ser que ainda haja tempo para que os deixemos ser quem sempre foram e que possam continuar a se integrar harmoniosamente, mantendo-se como são: homens, mulheres e crianças de alma boa produzindo vida, beleza em harmonia com a terra, sua arte – parte essencial da vida – não artefatos de museus.

(Ilustração abertura: “Tatu”- escultura em madeira policromada- 20x68x21cm – autor Tupanumaka Waurá- 2026 – coleção particular.)

Leia outras colunas da Elizabeth Titton aqui.