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maria do rocio vaz cabeca

31 meu

31

Era uma manhã ensolarada, a última de um ano que bem poderia ser apagado do calendário. Não havia expectativas, sequer, de que as horas restantes anunciassem uma primeira vez. Cumpririam seu compromisso com o relógio, sem surpresas, e, à meia-noite, adeus.

No ar, havia um cheiro típico de feira: aromas doces misturavam-se ao café, ao pastel e a outros temperos que confundiam os sentidos. Um espírito de festa tomava conta da rua onde, antigamente, comprávamos bala de metro com os pais. Dia perfeito para o Mercado.

As frutas maduras — sobretudo as vermelhas: cerejas, amoras, mirtilos, ameixas, romãs — ofereciam-se à ceia do Réveillon. Os bons vinhos também, prontos para regar sonhos vindouros.

Há muito perdi a audácia de fazer listas de desejos, mas sigo encontrando motivos para agradecer pelas orações atendidas e também pelos encantos inesperados. Assim, os últimos instantes daquele diário, ainda à luz do sol, foram perfeitos. O tempo, generoso, ainda me deu tempo.

Em meio à pressa das compras, nos esbarramos ao tentar abrir uma porta. Parecia que buscávamos as mesmas coisas. O espaço era pequeno, mas valia a pena. Giramos a chave juntos.

Fui tomada, então, por uma paz inquieta e curiosa, daquelas que a gente não sabe bem o que fazer. Amenidades suaves, histórias intensas, assuntos sobre um futuro que surgiria dali a pouco… Sorrisos sem intenção, olhares transparentes e misteriosos: apenas acontecíamos.

As mãos grandes e decididas do moço me provocavam a observá-las, enquanto, sem perder a discrição, eu buscava algum sinal de aconchego ou emoção nas razões dele. Éramos dois mundos impressionados um com o outro, nem tão contidos, nem tão inocentes. Duas linhas rumo a algum infinito.

Ele movia-se com uma pressa gentil, calculada. Suas palavras e argumentos, inteligentes, livres e honestos, davam-me a estranha sensação de ter sido escolhida para estar ali. Quase como uma recompensa pelos dias em que fui boazinha e ninguém notou.

Do que se seguiu após aquele inesquecível 31, digo apenas o necessário: eu quis. Quis ficar mais um pouco, quis ouvir de novo, quis tocar com cuidado aquilo que ainda não tinha nome.

Deixo-os à vontade para continuar este enredo. Beijos na testa ou na boca, entre flores; abraços longos ou em colos macios — permitam-se sonhar. Cafés quentes ou gelados, passeios pela praça, sob sol ou chuva — sintam o clima. Sobre bilhetes manuscritos, nada direi.

Se momentos felizes e conquistas foram partilhados, apostem que sim. E as dores também.

Quando a noite cai e os fogos anunciam o novo ano, sei que não é sobre promessas. É sobre presença. Sobre alegria.

É sobre o instante que se faz eterno no olhar do outro.

A vida não nos deu certezas, mas nos deu sentido. E, às vezes, isso é tudo o que precisamos para recomeçar.

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